Segunda parte - Capítulo LIV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 129 de 271
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Segunda parte - Capítulo LIV

Em que se diz de algumas árvores de fruto afastadas do mar.

Afastado do mar da Bahia, e perto dele se dão umas árvores que

chamam sapucaia, que são mui grandes, de cujo fruto tratamos

aqui somente. Esta árvore toma tanta flor amarela, que se lhe não

enxerga a folha ao longe, a qual flor é muito formosa, mas não

tem nenhum cheiro. Nasce desta flor uma bola de pau tão dura

como ferro, que está por dentro cheia de fruto. Terá esta bola uma

polegada de grosso, e tem a boca tapada com uma tapadoura tão

justa que se não enxerga a junta dela, a qual se não despega senão

como a fruta que está dentro e de vez, que esta bola cai no chão,

a qual tem por dentro dez ou doze repartimentos, e em cada um

uma fruta tamanha como uma castanha de Espanha, ou mais

comprida; as quais castanhas são muito alvas e saborosas, assim

assadas como cruas; e despegadas estas bolas das castanhas e bem

limpas por dentro, servem de grais ao gentio, onde pisam o sal e

a pimenta.

Piquiá é uma árvore de honesta grandura, tem a madeira amarela e boa de lavrar, a qual dá um fruto tamanho como marmelos

que têm o nome da árvore; este fruto tem a casca dura e grossa

como cabaço, de cor parda por fora, e por dentro é todo cheio de

um mel branco muito doce; e tem misturado umas pevides como

de maçãs, o qual mel se lhe come em sorvos, e refresca muito no

verão.

Macugê é uma árvore comprida, delgada e muito quebradiça e

dá-se em areias junto dos rios, perto do salgado, e pela terra dentro

dez ou doze léguas. Quando cortam esta árvore, lança de si um

leite muito alvo e pegajoso, que lhe corre em fio; a qual dá umas

frutas do mesmo nome, redondas, com os pés compridos e cor

verdoenga, e são tamanhas como maçãs pequenas; e quando são

verdes travam muito, e são todas cheias de leite. Colhem-se inchadas para amadurecerem em casa, e como são maduras tomam

a cor almecegada; comem-se todas como figos, cujo sabor é mui

suave, e tal que lhe não ganha nenhuma fruta da Espanha, nem

de outra parte; e tem muito bom cheiro.

Jenipapo é uma árvore que se dá ao longo do mar e pelo sertão, cujo fruto aqui tratamos somente. A sua folha é como de

castanheiro, a flor é branca, da qual lhe nasce muita fruta, de que

toma cada ano muita quantidade; as quais são tamanhas como

limas, e da sua feição; são de cor verdoenga, e como são maduras

se fazem de cor pardaça e moles, e têm honesto sabor e muito que

comer, com algumas pevides dentro, de que estas árvores nascem.

Quando esta fruta é pequena, faz-se dela conserva, e como é grande, antes de amadurecer, tinge o sumo dela muito, com a qual tinta se tinge toda a nação do gentio em lavores pelo corpo e quando

põe esta tinta é branca como água, e como se enxuga se faz preta

como azeviche; e quanto mais a lavam, mais preta se faz; e dura

nove dias, no cabo dos quais se vai tirando. Tem virtude esta tinta

para fazer secar as bostelas das boubas aos índios, e a quem se cura

com ela.

Pela terra adentro há outra árvore, a que chamam guti, que é

de honesta grandura; dá uma fruta do mesmo nome, do tamanho

e cor das peras pardas, cuja casca se lhe apara; mas tem grande

caroço, e o que se lhe come se tira em talhadas, como às peras,

e é muito saboroso; e lançadas essas talhadas em vinho não têm

preço. Faz-se desta fruta marmelada muito gostosa, a qual tem

grande virtude para estancar câmaras de sangue.

Nas campinas há outra árvore, a que chamam ubucaba, cuja

madeira é mole, e dá umas frutas pretas e miúdas como murtinhos, que se comem, e têm sabor mui sofrível.

Mondururu é outra árvore que dá umas frutas pretas, tamanhas como avelãs, que se comem todas, lançando-lhes fora umas

pevides brancas que tem, a qual fruta é muito saborosa.

Há outra árvore como laranjeira, que se chama comichã, a qual

carrega todos os anos de umas frutas vermelhas, tamanhas e de

feição de murtinhos, que se comem todas lançando-lhes fora uma

pevide preta que têm, que é a semente destas árvores, a qual fruta

é muito gostosa.

Mandiba é uma árvore grande que dá fruto do mesmo nome

tamanho como cerejas, de cor vermelha, e muito doce; come-se

como sorva, lançando-lhe o caroço fora e uma pevide que tem

dentro, que é a sua semente.

Cambuí é uma árvore delgada de cuja madeira se não usa, a

qual dá flor branca, e o fruto amarelo do mesmo nome; do tamanho, feição e cor das maçãs de anáfega. Esta fruta é mui saborosa,

e tem ponta de azedo; lança-se-lhe fora um carocinho que tem

dentro como coentro.

Dá-se no mato perto do mar e afastado dele uma fruta que se

chama curuanha, cuja árvore é como vides, e trepa por outra árvore qualquer, a qual tem pouca folha; o fruto que dá é de uns oito

dedos de comprido e de três a quatro de largo, de feição da fava,

o qual se parte pelo meio como fava e fica em duas metades, que

têm dentro três e quatro caroços, da feição das colas de Guiné, da

mesma cor e sabor, os quais caroços têm virtude para o fígado.

Estas metades têm a casquinha muito delgada como maçãs, e o

mais que se come é da grossura de uma casca de laranja; tem extremado sabor; comendo-se esta fruta crua, sabe e cheira a camoesas, e assada tem o mesmo sabor delas assadas; faz-se desta fruta

marmelada muito boa, a qual por sua natureza envolta no açúcar

cheira a almíscar, e tem o sabor de perada almiscarada; e quem a

não conhece entende e afirma que é perada.

Os araçazeiros são outras árvores que pela maior parte se dão

em terra fraca na vizinhança do mar, as quais são como macieiras

na grandura, na cor da casca, no cheiro da folha e na cor e feição

dela. A flor é branca, da feição da de murta, e cheira muito bem. Ao

fruto chamam araçás, que são da feição das nêsperas, mas alguns

muito maiores. Quando são verdes, têm a cor verde, e quando são

maduros têm a cor das peras; têm o olho como nêsperas, e por

dentro caroços, como elas, mas muito menores. Esta fruta se come

toda, e tem ponta de azedo mui saboroso, da qual se faz marmelada, que é muito boa, e melhor para os doentes de câmaras.

Perto do salgado há outra casta de araçazeiros, cujas árvores

são grandes, e o fruto como laranja, mas mui saboroso, ao qual

aparam a casca por ser muito grossa.

Araticu é uma árvore do tamanho de uma amoreira, cuja folha

é muito verde escura, da feição da laranjeira, mas maior; a casca da

árvore é como de loureiro, a madeira é muito mole, a flor é fresca,

grossa e pouco vistosa, mas o fruto é tamanho como uma pinha, e

em verde é lavrado como pinha, mas o lavor é liso e branco. Como

este fruto é maduro, arregoa todo pelos lavores que ficam então

brancos, e o pomo é muito mole, e cheira muito bem, e tamanho

é o seu cheiro que, estando em cima da árvore, se conhece debaixo

que está maduro pelo cheiro. Este fruto por natureza é frio e sadio;

para se comer corta-se em quartos, lançando-lhe fora umas pevides que tem, amarelas e compridas, como de cabaços, das quais

nascem estas árvores; e aparam-lhe a casca de fora, que é muito

delgada, e todo mais se come, que tem muito bom sabor com ponta de azedo, a qual fruta é para a calma mui desenfastiada.

Pino é uma árvore comprida, delgada esfarrapada da folha, a

qual é do tamanho e feição da folha da parra. O seu fruto nasce

em ouriço cheio de espinhos como os das castanhas, e tirado esse

ouriço fora fica uma coisa do tamanho de uma noz, e da mesma

cor, feição e dureza, o qual lhe quebram, e tiram-lhe de dentro

dez ou doze pevides do tamanho de amêndoas sem casca, mas

mais delgadas, às quais tiram uma camisa parda que têm, como

as amêndoas, e fica-lhes o miolo alvíssimo, que tem o sabor como

as amêndoas; de que se fazem todas as frutas doces que se costumam fazer das amêndoas, os quais pinhos, lançados em água fria,

incham e ficam muito desenfastiados para comer, e são bons para

dor de cabeça, de que se fazem amendoadas. Dão-se estas árvores

em ladeira, sobre o mar, e à vista dele, em terras dependuradas.

Abajeru é uma árvore baixa como carrasco, natural de onde lhe

chega o rocio do mar, pelo que se não dão estas árvores senão ao

longo das praias, cuja folha é áspera, e dá uma flor branca e pequena. O fruto é do mesmo nome da feição e tamanho das ameixas de

cá, e de cor roxa; come-se como ameixas, mas tem maior caroço; o

sabor é doce e saboroso.

Amaitim é uma árvore muito direita, comprida e delgada; tem

a folha como figueira, dá uns cachos maiores que os das uvas ferrais; tem os bagos redondos, tamanhos como os das uvas mouriscas, e muito esfarrapados, cuja cor é roxa, e cobertos de um pelo

tão macio como veludo; metem-se estes bagos na boca e tiram-lhe

fora um caroço como de cereja, e a pele que tem o pelo, entre a

qual e o caroço tem um doce mui saboroso como o sumo das boas

uvas.

Apé é uma árvore do tamanho e feição das oliveiras, mas tem

a madeira áspera e espinhosa como romeira, a folha é da feição de

pessegueiro e da mesma cor. Esta árvore dá um fruto do mesmo

nome, da feição das amoras, mas nunca são pretas, e têm a cor

brancacenta; come-se como as amoras; tem bom sabor, com ponta

de azedo, muito apetitoso para quem tem fastio; as quais árvores

se dão ao longo do mar e à vista dele.

Murici é uma árvore pequena, muito seca da casca e da folha,

cuja madeira não serve para nada; dá umas frutas amarelas, menores que cerejas, que nascem em pinhas como elas, com os pés

compridos; a qual fruta é mole e come-se toda; cheira e sabe a

queijo do Alentejo que requeima. Estas árvores se dão nas campinas perto do mar, em terras fracas.

Cupiúba é uma árvore da feição do loureiro, assim na cor da

casca do tronco como na folha, a qual carrega por todos os ramos

de uma fruta preta do mesmo nome, maior que murtinhos, e

toma tantos ordinariamente que negrejam ao longe. Esta fruta se

come como uvas, e têm o sabor delas quando as vindimam, que

estão muito maduras, e tem uma pevide preta que se lhe lança

fora. Dão-se estas árvores ao longo do mar e dos rios por onde entra a maré.

Maçarandiba é uma árvore real de cuja madeira se dirá ao diante. Só lhe cabe aqui dizer do seu fruto, que é da cor dos medronhos

e do seu tamanho, cuja casca é tesa e tem duas pevides dentro,

que se lhe lançam fora com a casca; o mais se lhe come, que é doce

e muito saboroso; e quem come muita desta fruta que se chama

como a árvore, pegam-se-lhe os bigodes com o sumo dela, que é

muito doce e pegajoso e para os índios lhe colherem esta fruta

cortam as árvores pelo pé como fazem a todas que são altas. Estas

se dão ao longo do mar ou à vista dele.

Mucuri é uma árvore grande que se dá perto do mar, a qual dá

umas frutas amarelas, tamanhas como abricoques, que cheiram

muito bem, e têm grande caroço; o que se lhe come é de maravilhoso sabor, e aparam-lhe a casca de fora.

Cambucá é outra árvore de honesta grandura, que dá umas frutas amarelas do mesmo nome, tamanhas como abricoques, mas

têm maior caroço e pouco que comer; é muito doce e de honesto

sabor.

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