Segunda parte - Capítulo III
Em que se declara como se edificou a cidade do Salvador.
Como Tomé de Sousa acabou de desembarcar a gente da armada e a assentou na Vila Velha, mandou descobrir a baía, e que lhe
buscassem mais para dentro alguma abrigada melhor que a em
que estava a armada para a tirarem daquele porto da Vila Velha,
onde não estava segura, por ser muito desabrigada; e por se achar
logo o porto e ancoradouro, que agora está defronte da cidade,
mandou passar a frota para lá, por ser muito limpo e abrigado; e
como teve a armada segura, mandou descobrir a terra bem, e achou
que defronte do mesmo porto era melhor sítio que por ali havia
para edificar a cidade, e por respeito do porto assentou que não
convinha fortificar-se no porto de Vila Velha, por defronte desse
porto estar uma grande fonte, bem à borda da água que servia para
aguada dos navios e serviço da cidade, o que pareceu bem a todas
as pessoas do conselho que nisso assinaram. E, tomada esta resolução, se pôs em ordem para este edifício, fazendo primeiro uma
cerca muito forte de pau a pique, para os trabalhadores e soldados
poderem estar seguros do gentio. Como foi acabada, arrumou a
cidade dela para dentro, arruando-a por boa ordem com as casas
cobertas de palma, ao modo do gentio, nas quais por entretanto
se agasalharam os mancebos e soldados que vieram na armada. E
como todos foram agasalhados, ordenou de cercar esta cidade de
muros de taipa grossa, o que fez com muita brevidade, com dois
baluartes ao longo do mar e quatro da banda da terra, em cada
um deles assentou muito formosa artilharia que para isso levava,
com o que a cidade ficou muito bem fortificada para se segurar do
gentio; na qual o governador fundou logo um colégio dos padres
da Companhia, e outras igrejas e grandes casas, para viverem os
governadores, casas da câmara, cadeia, alfândega, contos, fazendas, armazéns, e outras oficinas convenientes ao serviço de Sua
Alteza.