Segunda parte - Capítulo CXV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 190 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXV

Que trata da diversidade das rãs e sapos que há no Brasil.

Chamam os índios cururus aos sapos da Espanha, que não têm

nenhuma diferença, mas não mordem, nem fazem mal, estando

vivos; mortos, sim, porque o seu fel é peçonha mui cruel, e os fígados e a pele, da qual o gentio usa quando quer matar alguém. Estes

sapos se criam pelos telhados, e em tocas de árvores e buracos das

paredes, os quais têm um bolso na barriga em que trazem os ovos,

que são tamanhos como avelãs e amarelos como gema de ovos,

de que se geram os filhos, onde os trazem metidos até que saiam

para buscar sua vida; estes sapos buscam de comer de noite, a que

os índios comem, como às rãs; mas tiram-lhes as tripas e forçura

fora, de maneira que lhe não arrebente o fel; porque se arrebenta

fica a carne toda peçonhenta, e não escapa quem a come, ou alguma coisa da pele e forçura.

E porque as rãs são de diferentes feições e costumes, digamos

logo de umas a que os índios chamam juiponga, que são grandes,

e quando cantam parecem caldeireiros que malham nas caldeiras;

e estas são pardas, e criam-se nos rios onde desovam cada lua; as

quais se comem, e são muito alvas e gostosas.

Desta mesma casta se criam nas lagoas, onde desovam enquanto tem água, mas, como se seca, recolhem-se para o mato nos

troncos das árvores, onde estão até que chove e, como as lagoas

têm qualquer água, logo se tornam para elas, onde desovam; e os

seus ovos são pretos, e de cada um nasce um bichinho com barbatanas e rabo, e as barbatanas se lhes convertem nos braços, e

o rabo se lhes converte nas pernas. Enquanto são bichinhos lhes

chamam os índios juins, do que há sempre infinidade deles, assim

nas lagoas como no remanso dos rios; do que se enchem balaios

quando os tomam, e para os alimparem apertam-nos entre os dedos, e lançam-lhes as tripas fora, e embrulham-nos às mancheias

em folhas, e assam-nos no borralho; o qual manjar gabam muito

os línguas que tratam com o gentio, e os mestiços.

Juijiá é outra casta de rãs, que são brancacentas, e andam sempre na água, e quando chove muito falam de maneira que parecem crianças que choram, as quais se comem esfoladas, como as

mais; e são muito alvas, e gostosas.

Há outra casta de rãs, a que os índios chamam juií; e são muito

grandes, e de cor pretaça; e desovam na água como as outras, as

quais, depois de esfoladas, têm tamanho corpo como um honesto

coelho.

Cria-se na água outra casta de rãs, a que os índios chamam

juiperereca, que saltam muito, em tanto que dão saltos do chão

em cima dos telhados, onde andam no inverno, e cantam de cima

como chove; as quais são verdes, e desovam também na água em

lugares úmidos; e esfoladas comem-se como as outras.

Há outra casta de rãs, a que os índios chamam juiguaraigaraí,

que são pequenas, e no inverno, quando há de fazer sol e bom tempo, cantam toda noite no alagadiço, onde se criam, o qual sinal é

muito certo; estas são verdes, e desovam na água que corre entre

junco ou rama, também esfoladas se comem e são muito boas.

Como não há ouro sem fezes, nem tudo é a vontade dos homens, ordenou Deus que entre tantas coisas proveitosas para o

serviço dele, como fez na Bahia, houvesse algumas imundícias

que os enfadassem muito, para que não cuidassem que estavam

em outro paraíso terreal, de que diremos daqui por diante, começando no capítulo que se segue das lagartas.

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