Segunda parte - Capítulo LXVI
Em que se acaba de concluir a informação das árvores reais que se
criam na Bahia.
Maçaranduba é outra árvore real, de cujo fruto já fica dito
atrás; são naturais estas árvores da vizinhança do mar; e acham -
-se muitas de trinta a quarenta palmos de roda, de que se fazem
gangorras, mesas, eixos, fusos, virgens, esteios e outras obras dos
engenhos, cuja madeira é de cor de carne de presunto, e tão dura
de lavrar que não há ferramenta que lhe espere, e tão pesada que
se vai ao fundo. Estas árvores são tão compridas e direitas que se
aproveitam do grosso delas de cem palmos para cima, e nunca se
corrompem.
Há outra árvore real que se chama jataí-mondé, que não é
tamanha como as de cima, mas de honesta grandura, de que se
fazem eixos, fusos, virgens, esteios e outras obras dos engenhos,
cuja madeira é amarela, de cor formosa, muito rija e doce de lavrar e incorruptível; e é tão pesada que vai ao fundo; e não se dá
em ruim terra.
Nas várzeas de areia se dão outras árvores reais, a que os índios
chamam curuá, as quais se parecem na feição, na folha, na cor
da madeira, com carvalhos; e acham-se alguns de vinte e cinco
a trinta palmos de roda, de que se fazem gangorras, mesas, eixos,
virgens, esteios e outras obras miúdas; mas não é muito fixo ao
longo da terra; a qual também serve para liames de navios e barcos e para tabuado; e de pesado se vai ao fundo.
Há outras árvores reais, a que os portugueses chamam angelina, e os índios andurababapari, as quais são muito grandes e
acham-se muitas de mais de vinte palmos de roda, de que fazem
gangorras, mesas, eixos, virgens, esteios e outras obras dos engenhos e das casas de vivenda, e boas caixas por ser madeira leve e
boa de lavrar, e honesta cor.
Jequitibá é outra árvore real, façanhosa na grossura e comprimento, de que se fazem gangorras, mesas dos engenhos e outras
obras, e muito tabuado; e já se cortou árvore destas tão compridas
e grossa, que deu no comprimento e grossura duas gangorras, que
cada uma pelo menos há de ter cinquenta palmos de comprido,
quatro de assento e cinco de alto. Esta madeira tem a cor brancacenta, é leve e pouco durável, onde lhe chove; não se dão estas
árvores em ruim terra.
Ubiraém é outra árvore real de que se acham muitas de vinte
palmos de roda para cima, de que se fazem gangorras, mesas, virgens, esteios dos engenhos e tabuado para navios, e outras obras,
cuja cor é amarelaça; não muito pesada, e boa de lavrar.
Pelas campinas e terra fraca se criam muitas árvores, que se
chamam sepepiras, que em certo tempo se enchem de flor como
de pessegueiro; não são árvores muito façanhosas na grandura,
por serem desordenadas nos troncos, mas tiram-se delas virgens,
esteios e fusos para os engenhos; a madeira é parda e muito rija,
e tão liada que nunca fende; e para liação de navios e barcos é a
melhor que há no mundo, que sofre melhor o prego e nunca apodrece; de que se também fazem carros muito bons; e é tão pesada
esta madeira que se vai ao fundo.
Putumuju é uma árvore real, e não se dá senão em terra muito
boa; não são árvores muito grandes, mas dão três palmos de testa.
Esta é das mais fixas madeiras que há no Brasil, porque nunca se
corrompe, da qual se fazem eixos, virgens, fusos, esteios para os
engenhos, e toda a obra de casas e de primor; a cor desta madeira
é amarela com umas veias vermelhas; é pesada e dura, mas muito
doce de lavrar.
Há outras árvores, que se chamam urucuranas, que são muito
compridas e de grossura, que fazem delas virgens e esteios para os
engenhos, e outras muitas obras de casas, e tabuado para navios,
a quem o gusano não faz mal; a qual madeira é pesada, e vai-se ao
fundo; tem a cor de carne de fumo, e é boa de lavrar e serrar.