Segunda parte - Capítulo LXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 141 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo LXVI

Em que se acaba de concluir a informação das árvores reais que se

criam na Bahia.

Maçaranduba é outra árvore real, de cujo fruto já fica dito

atrás; são naturais estas árvores da vizinhança do mar; e acham -

-se muitas de trinta a quarenta palmos de roda, de que se fazem

gangorras, mesas, eixos, fusos, virgens, esteios e outras obras dos

engenhos, cuja madeira é de cor de carne de presunto, e tão dura

de lavrar que não há ferramenta que lhe espere, e tão pesada que

se vai ao fundo. Estas árvores são tão compridas e direitas que se

aproveitam do grosso delas de cem palmos para cima, e nunca se

corrompem.

Há outra árvore real que se chama jataí-mondé, que não é

tamanha como as de cima, mas de honesta grandura, de que se

fazem eixos, fusos, virgens, esteios e outras obras dos engenhos,

cuja madeira é amarela, de cor formosa, muito rija e doce de lavrar e incorruptível; e é tão pesada que vai ao fundo; e não se dá

em ruim terra.

Nas várzeas de areia se dão outras árvores reais, a que os índios

chamam curuá, as quais se parecem na feição, na folha, na cor

da madeira, com carvalhos; e acham-se alguns de vinte e cinco

a trinta palmos de roda, de que se fazem gangorras, mesas, eixos,

virgens, esteios e outras obras miúdas; mas não é muito fixo ao

longo da terra; a qual também serve para liames de navios e barcos e para tabuado; e de pesado se vai ao fundo.

Há outras árvores reais, a que os portugueses chamam angelina, e os índios andurababapari, as quais são muito grandes e

acham-se muitas de mais de vinte palmos de roda, de que fazem

gangorras, mesas, eixos, virgens, esteios e outras obras dos engenhos e das casas de vivenda, e boas caixas por ser madeira leve e

boa de lavrar, e honesta cor.

Jequitibá é outra árvore real, façanhosa na grossura e comprimento, de que se fazem gangorras, mesas dos engenhos e outras

obras, e muito tabuado; e já se cortou árvore destas tão compridas

e grossa, que deu no comprimento e grossura duas gangorras, que

cada uma pelo menos há de ter cinquenta palmos de comprido,

quatro de assento e cinco de alto. Esta madeira tem a cor brancacenta, é leve e pouco durável, onde lhe chove; não se dão estas

árvores em ruim terra.

Ubiraém é outra árvore real de que se acham muitas de vinte

palmos de roda para cima, de que se fazem gangorras, mesas, virgens, esteios dos engenhos e tabuado para navios, e outras obras,

cuja cor é amarelaça; não muito pesada, e boa de lavrar.

Pelas campinas e terra fraca se criam muitas árvores, que se

chamam sepepiras, que em certo tempo se enchem de flor como

de pessegueiro; não são árvores muito façanhosas na grandura,

por serem desordenadas nos troncos, mas tiram-se delas virgens,

esteios e fusos para os engenhos; a madeira é parda e muito rija,

e tão liada que nunca fende; e para liação de navios e barcos é a

melhor que há no mundo, que sofre melhor o prego e nunca apodrece; de que se também fazem carros muito bons; e é tão pesada

esta madeira que se vai ao fundo.

Putumuju é uma árvore real, e não se dá senão em terra muito

boa; não são árvores muito grandes, mas dão três palmos de testa.

Esta é das mais fixas madeiras que há no Brasil, porque nunca se

corrompe, da qual se fazem eixos, virgens, fusos, esteios para os

engenhos, e toda a obra de casas e de primor; a cor desta madeira

é amarela com umas veias vermelhas; é pesada e dura, mas muito

doce de lavrar.

Há outras árvores, que se chamam urucuranas, que são muito

compridas e de grossura, que fazem delas virgens e esteios para os

engenhos, e outras muitas obras de casas, e tabuado para navios,

a quem o gusano não faz mal; a qual madeira é pesada, e vai-se ao

fundo; tem a cor de carne de fumo, e é boa de lavrar e serrar.

1/1
Menu

Fazer anotação