Segunda parte - Capítulo CLXXXIV
Que trata de quem são os tapuias, quem são os maracás.
Como os tapuias são tantos e estão tão divididos em bandos,
costumes e linguagem, para se poder dizer deles muito, era necessário de propósito e devagar tomar grandes informações de suas
divisões, vida e costumes; mas, pois ao presente não é possível,
trataremos de dizer dos que vizinham com a Bahia, sobre quem
se fundaram todas estas informações que neste caderno estão
relatadas; começando logo que os mais chegados tapuias aos povoadores da Bahia são uns que se chamam de alcunha os maracás,
os quais são homens robustos e bem acondicionados, trazem o
cabelo crescido até as orelhas e copado, e as mulheres, os cabelos
compridos atados detrás, o qual gentio fala sempre de papo tremendo com a fala, e não se entende com outro nenhum gentio
que não seja tapuia.
Quando estes tapuias cantam, não pronunciam nada, por ser
tudo garganteado, mas a seu modo; não entoados e prezam-se de
grandes músicos, a quem o outro gentio folga muito de ouvir cantar. São estes tapuias grandes flecheiros, assim para a caça como
para seus contrários, e são muito ligeiros e grandes corredores, e
grandes homens de pelejarem em campo descoberto, mas pouco
amigos de abalroar cercas; e quando dão em seus contrários, se se
eles recolhem em alguma cerca, não se detêm muito em os cercar,
antes se recolhem logo para suas casas, as quais têm em aldeias
ordenadas, como costumam os tupinambás.
Estes tapuias não comem carne humana, e se tomam na guerra
alguns contrários, não os matam; mas servem-se deles como de
seus escravos, e por tais os vendem agora aos portugueses que
com eles tratam e comunicam.
São estes tapuias muito folgazões, e não trabalham nas roças,
como os tupinambás, nem plantam mandioca, nem comem senão
legumes, que lhes as mulheres plantam, e granjeiam em terras
sem mato grande, a que põem o fogo para fazerem suas sementeiras; os homens ocupam-se em caçar, a que são muito afeiçoados.
Costuma este gentio não matar a ninguém dentro de suas casas, e se seus contrários, fugindo-lhes da briga, se acolhem a elas,
não os hão de matar dentro, nem fazer-lhes nenhum agravo, por
mais irados que estejam; e esperam que saiam para fora, ou, se lhes
passa a ira e aceitam-nos por escravos, ao que são mais afeiçoados
que a matá-los, como lhes fazem a eles.
São os tapuias contrários de todas as outras nações do gentio,
por terem guerra com eles ao tempo que viviam junto do mar, de
onde por força de armas foram lançados; os quais são homens de
grandes forças, andam nus, como o mais gentio, e não consentem
em si mais cabelos que os da cabeça, e trazem os beiços furados e
pedras neles, como os tupinambás.
Estes tapuias são conquistados, pela banda do Rio de Seregipe,
dos tupinambás que vivem por aquelas partes; e por outra parte os vêm saltear os tupinaés, que vivem da banda do poente; e
vigiam-se ordinariamente de uns e dos outros; e está povoado
deste gentio por esta banda cinquenta ou sessenta léguas de terra;
entre os quais há uma serra, onde há muito salitre e pedras verdes,
de que eles fazem as que trazem metidas nos beiços por bizarria.