Segunda parte - Capítulo XXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 103 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXVIII

Em que se declara o como corre a terra do Rio de Paraguaçu ao longo

do mar da Bahia até a boca de Jaguaripe e por este rio acima.

Do Cabo do Rio Paraguaçu, onde se ele mete na baía grande,

vai fazendo a terra umas enseadas de areia, obra de duas léguas,

que estão povoadas de currais de vacas e de pescadores, e no cabo

destas duas léguas faz a terra uma ponta de areia muito saída ao

mar da baía a qual corta a maré a passos; e quando é cheia, fica

parte desta ponta em ilha e passada da outra banda tem sete ou

oito ilhéus de areia cheios de mangues; e tornando a correr a costa

contra Jaguaripe se vai armando em enseadas obra de três léguas

que estão povoadas, até em direito da Ilha da Pedra, de currais de

vacas e fazendas de gente pobre, que não plantam mais que mantimentos, de que se mantêm. Esta Ilha da Pedra é de pouco mais

de meia légua de comprido e tem muito menos de largura; e mais

avante está outra ilha que tem mais de légua de comprido, que

se diz a de Fernão Vaz. Por detrás desta ilha vai correndo a costa

da terra firme mui chegada e elas, a qual costa por detrás dessas

ilhas terá três léguas de espaço até chegar ao Rio de Jaguaripe,

tudo terra despovoada por ser fraca de campinas, onde se mete

no salgado uma ribeira, que se chama Pujuca, que servirá para um

engenho, ainda que junto do porto venha a água baixa, e será necessário fazer o engenho um pedaço pela terra adentro, por amor

da aferida. E virando da boca de Jaguaripe para cima, daí a duas

léguas, é a terra mui fraca, que não serve senão para vacas e roças

de mantimentos; e do cabo destas duas léguas até a cachoeira é a

terra sofrível e tem cinco ribeiras, que se vêm meter a este rio, em

que se podem fazer cinco engenhos, os quais não são já feitos por

o capitão desta terra não querer dar águas menos de a dois por

cento do foro, que no cabo de um ano vem a montar oitenta a cem

arrobas de açúcar, que valem a oitocentos réis cada arroba.

Este Rio de Jaguaripe é tamanho como o Douro, mas mais

aprazível na frescura; navega-se até a cachoeira que está cinco

léguas da barra e duas léguas abaixo da cachoeira é água doce,

a qual o salgado com a força da maré faz recuar até a cachoeira.

Junto da cachoeira virando sobre a mão direita, para baixo, está

um engenho de água de Fernão Cabral de Ataíde, obra mui formosa e ornada de nobres edifícios de casas de vivenda e de outras

oficinas e de uma igreja de São Bento, mui bem acabada, o qual

engenho está feito nas terras d’El-Rei que estão livres de todo o

foro, que costumam pôr os capitães. Desse engenho para baixo

vivem alguns moradores que têm suas roças e canaviais ao longo

do rio, que o aformoseiam muito, no qual se vêm meter três ribeiras por esta mesma banda capazes de três engenhos que se nelas

podem mui bem fazer, duas léguas abaixo de Fernão Cabral; mas

a terra desta banda é rasa e de areia, que não serve para mais que

para lenha dos mesmos engenhos, a qual terra fica no cabo em

língua estreita defronte da Ilha de Fernão Vaz, a qual ponta tem

uma ilhota no cabo, onde se vem ajuntar o Rio de Irajuí com o de

Jaguaripe.

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