Segunda parte - Capítulo XXVIII
Em que se declara o como corre a terra do Rio de Paraguaçu ao longo
do mar da Bahia até a boca de Jaguaripe e por este rio acima.
Do Cabo do Rio Paraguaçu, onde se ele mete na baía grande,
vai fazendo a terra umas enseadas de areia, obra de duas léguas,
que estão povoadas de currais de vacas e de pescadores, e no cabo
destas duas léguas faz a terra uma ponta de areia muito saída ao
mar da baía a qual corta a maré a passos; e quando é cheia, fica
parte desta ponta em ilha e passada da outra banda tem sete ou
oito ilhéus de areia cheios de mangues; e tornando a correr a costa
contra Jaguaripe se vai armando em enseadas obra de três léguas
que estão povoadas, até em direito da Ilha da Pedra, de currais de
vacas e fazendas de gente pobre, que não plantam mais que mantimentos, de que se mantêm. Esta Ilha da Pedra é de pouco mais
de meia légua de comprido e tem muito menos de largura; e mais
avante está outra ilha que tem mais de légua de comprido, que
se diz a de Fernão Vaz. Por detrás desta ilha vai correndo a costa
da terra firme mui chegada e elas, a qual costa por detrás dessas
ilhas terá três léguas de espaço até chegar ao Rio de Jaguaripe,
tudo terra despovoada por ser fraca de campinas, onde se mete
no salgado uma ribeira, que se chama Pujuca, que servirá para um
engenho, ainda que junto do porto venha a água baixa, e será necessário fazer o engenho um pedaço pela terra adentro, por amor
da aferida. E virando da boca de Jaguaripe para cima, daí a duas
léguas, é a terra mui fraca, que não serve senão para vacas e roças
de mantimentos; e do cabo destas duas léguas até a cachoeira é a
terra sofrível e tem cinco ribeiras, que se vêm meter a este rio, em
que se podem fazer cinco engenhos, os quais não são já feitos por
o capitão desta terra não querer dar águas menos de a dois por
cento do foro, que no cabo de um ano vem a montar oitenta a cem
arrobas de açúcar, que valem a oitocentos réis cada arroba.
Este Rio de Jaguaripe é tamanho como o Douro, mas mais
aprazível na frescura; navega-se até a cachoeira que está cinco
léguas da barra e duas léguas abaixo da cachoeira é água doce,
a qual o salgado com a força da maré faz recuar até a cachoeira.
Junto da cachoeira virando sobre a mão direita, para baixo, está
um engenho de água de Fernão Cabral de Ataíde, obra mui formosa e ornada de nobres edifícios de casas de vivenda e de outras
oficinas e de uma igreja de São Bento, mui bem acabada, o qual
engenho está feito nas terras d’El-Rei que estão livres de todo o
foro, que costumam pôr os capitães. Desse engenho para baixo
vivem alguns moradores que têm suas roças e canaviais ao longo
do rio, que o aformoseiam muito, no qual se vêm meter três ribeiras por esta mesma banda capazes de três engenhos que se nelas
podem mui bem fazer, duas léguas abaixo de Fernão Cabral; mas
a terra desta banda é rasa e de areia, que não serve para mais que
para lenha dos mesmos engenhos, a qual terra fica no cabo em
língua estreita defronte da Ilha de Fernão Vaz, a qual ponta tem
uma ilhota no cabo, onde se vem ajuntar o Rio de Irajuí com o de
Jaguaripe.