Segunda parte - Capítulo XLVII
Em que se declara a natureza dos amendoins e para que servem.
Dos amendoins temos que dar conta particular, porque é coisa
que se não sabe haver senão no Brasil, os quais nascem debaixo
da terra, onde se plantam a mão, um palmo um do outro; as suas
folhas são como as dos feijões da Espanha, e tem os ramos ao
longo do chão. E cada pé dá um grande prato destes amendoins,
que nascem nas pontas das raízes, os quais são tamanhos como
bolotas, e têm a casca da mesma grossura e dureza, mas é branca e
crespa, e têm dentro de cada bainha três e quatro amendoins, que
são da feição dos pinhões com casca, e ainda mais grossos. Têm
uma tona parda, que se lhes sai logo como a do miolo dos pinhões,
o qual miolo é alvo. Comestos crus têm sabor de gravanços crus,
mas comem-se assados e cozidos com a casca, como as castanhas,
e são muito saborosos, e torrados fora da casca são melhores. De
uma maneira e de outra é esta fruta muito quente em demasia,
e causam dor de cabeça, a quem come muitos, se é doente dela.
Plantam-se estes amendoins em terra solta e úmida, na qual planta e benefício dela não entra homem macho: só as índias os costumam plantar, e as mestiças; e nesta lavoura não entendem os
maridos, e têm para si que se eles ou seus escravos os plantarem,
que não hão de nascer. E as fêmeas os vão apanhar, e, segundo seu
uso, hão de ser as mesmas que os plantem; e para durarem todo o
ano curam-nos no fumo, onde os têm até vir outra novidade.
Desta fruta fazem as mulheres portuguesas todas as coisas
doces, que fazem das amêndoas, e cortados os fazem cobertos
de açúcar, de mistura com os confeitos. E também os curam em
peças delgadas e compridas, de que fazem pinhoadas; e quem os
não conhece por tal os come, se lhos dão. O próprio tempo em
que se os amendoins plantam é em fevereiro, e não estão debaixo
da terra mais que até maio, que é o tempo em que se lhes colhe a
novidade, o que as fêmeas vão fazer com grande festa.