Segunda parte - Capítulo CV
Que trata da diversidade dos ratos que se comem, e coelhos e outros
ratos de casa.
Pelo sertão há uns bichos a que os índios chamam saviá e são
tamanhos como láparos; têm o rabo comprido, o cabelo como
lebre; criam em covas no chão; mantêm-se das frutas silvestres;
tomam-nos em armadilhas cuja carne é muito estimada de toda
pessoa, por ser muito saborosa, e parece-se com a dos coelhos.
Aperiás são outros bichos tamanhos como láparos, que não
têm rabo; e têm o rosto da feição do leitão, as orelhas como coelho, e o cabelo como lebre; criam em covas, comem frutas e canas-
-de-açúcar, a que fazem muito dano, cuja carne é muito saborosa.
Mais pela terra adentro, há outros bichos da feição de ratos, mas
tamanhos como coelhos, com o cabelo branco, a que os índios
chamam saviá-tinga, os quais criam em covas, e comem frutas;
cuja carne é muito boa, sadia e saborosa.
No mesmo sertão há outros bichos, da feição de ratos, tamanhos como coelhos, a que os índios chamam saviá-coca, que têm
o cabelo vermelho, criam em covas, e mantêm-se da fruta do
mato; cuja carne é como de coelhos.
Em toda a parte dos matos da Bahia se criam coelhos como
os da Espanha, mas não são tamanhos, a que os índios chamam
tapotim; e todas as feições têm de coelhos, senão o rabo, porque o
não têm; os quais criam em covas, e as fêmeas parem muito; cuja
carne é como a dos coelhos, e muito saborosa.
Em algumas partes dos matos da Bahia se criam uns bichos,
sobre o grande, com todas as feições e parecer de ratos, a que os
gentios chamam jupati, que não se comem, os quais criam em
troncos das árvores velhas; e as fêmeas têm um bolso na barriga,
em que trazem sete e oito filhos, até que são criados, que tanto
parem.
Aos ratos das casas chamam os índios saviá, onde se criam infinidade deles, os quais são muito daninhos, e de dia andam pelo
mato, e de noite vêm-se meter nas casas.