Primeira parte - Capítulo LII
Em que se explica a terra da Baía do Rio de Janeiro da ponta da cidade para dentro até tornar à barra.
Na ponta desta cidade o ancoradouro dos navios, que está
detrás da cidade, está uma ilheta que se diz a da Madeira, por se
tirar dela muita, a qual serve aos navios que aqui se recolhem de
consertar as velas. E desta ponta a uma légua está outra ponta,
fazendo a terra em meio uma enseada, onde está o porto, que se
diz de Martim Afonso, onde entra nesta baía um riacho, que se
diz Iabubiracica; defronte deste porto de Martim Afonso estão
espalhados seis ilhéus de arvoredo. E desta ponta por diante se
torna a terra a recolher, à maneira de enseada, e dali a meia légua
faz outra ponta, e antes dela entra outro riacho no salgado, que se
chama Unhaúma; e à ponta se chama Braço pequeno. Dessa ponta
que se diz Braço pequeno por diante, foge a terra para trás muito,
onde se faz um esteiro, por onde entra a maré três léguas; e fica a
terra na boca deste esteiro de ponta a ponta, um tiro de berço, donde começa a terra a fazer enseada, que de ponta a ponta são duas
léguas, a qual terra é alta até a ponta. Defronte desta enseada está
a Ilha de Salvador Correia, que se chama Parnapicu, que tem três
léguas de comprido, e uma de largo, na qual está um engenho de
açúcar, que lavra com bois, que ele fez. Atravessando esta ilha por
mar à cidade são duas léguas, a qual ilha tem em redor de si oito
ou nove ilhas, que dão pau-brasil. Do cabo desta enseada grande
e da ponta da terra alta, se faz outra enseada apertada na boca, na
qual se mete um rio, que nasce ao pé da Serra dos Órgãos, que está
cinco léguas pela terra adentro, o qual se chama Magipe, e mais
adiante légua e meia entra outro riacho nesta baía, que se chama
Sururuí. Deste Rio Sururuí a duas léguas, entra outro nesta baía,
que se chama Macucu, que se navega pela terra adentro quatro
léguas, no qual se mete outro rio, que se chama dos Goitacases,
que vem de muito longe. Defronte do Rio Macucu está uma ilha,
que se chama Caiaíba, e desta ilha a uma está outra, que se chama Pacatá; e desta à Salvador Correia é légua e meia; e estão estas
ilhas todas três em direito leste-oeste umas das outras. E dessa
Ilha Pacatá direito ao sul estão seis ilhéus, e para o sueste estão
cinco, em duas carreiras. Da ponta do Rio Macucu para a banda de
leste se recolhe a terra e faz uma enseada até outra ponta da terra
saída ao mar, em que entra um riacho, que se chama Baxindiba,
e da ponta deste riacho à de Macucu é légua e meia. Defronte
de Baxindiba, está outra ilha, cheia de arvoredo; de Baxindiba se
torna a afastar a terra para dentro, fazendo outra enseada, com
muitos mangues no meio, na qual se mete outro rio, que se diz
Suaçuna, e haverá de ponta a ponta duas léguas. E no meio, bem
em direito das pontas, está outra ilha cheia de arvoredo, e a outra
ponta desta enseada se diz Mutungabo. Da ponta de Mutungabo
se esconde a terra para dentro bem dois terços de légua, onde se
mete um rio, que se chama Pau Doce, e faz uma volta, tornando
a terra a sair para fora bem meia légua, onde faz outra ponta, que
se chama Urumaré. Dessa ponta à de Mutungabo é uma légua, e,
bem em direito destas pontas, em meio desta enseada está outra
ilha de arvoredo. Desta ponta de Mutungabo à de Macucu são
quatro léguas; da ponta de Urumaré a dois terços de légua está outra ponta, onde se começam as barreiras vermelhas, que ficam defronte da cidade, onde bate o mar da baía; e defronte dessa ponta,
para o norte está uma ilha, que se diz de João Fernandes, diante da
qual está outra menor. Das barreiras vermelhas se vai afeiçoando
a terra ao longo da água, como cabeça de cajado, onde se faz uma
enseada que se chama de Piratininga, e a ponta e língua da terra
dele vêm quase em direito de Viragalham, a qual ponta se chama
de Lery, e o cotovelo desta língua de terra faz uma ponta defronte
da de Cara de Cão, que fica em padrasto sobre a lájea da barra, na
qual ponta está outra lájea, que o salgado aparta de terra qualquer
coisa, a qual fica ao pé do pico do padrasto, que está sobre a barra.
Entram por esta barra do Rio de Janeiro naus de todo o porte, as
quais podem estar neste rio seguras, como fica dito, de maneira
que terá esta Baía do Rio de Janeiro, em redondo, da ponta de Cara
de Cão, andando por dentro até o mar, à outra ponta da lájea, vinte léguas pouco mais ou menos, que se navega em barcos, e pelo
mais largo haverá de terra a terra seis léguas.