Segunda parte - Capítulo LXVII
Daqui por diante se trata das madeiras meãs.
Madeiras meãs, e de toda a sorte, há tantas na Bahia, que se não
podem contar, das quais diremos alguma parte das que chegaram
à nossa notícia.
E comecemos no camaçari que são árvores naturais de areias
e terras fracas. São estas árvores muito compridas e direitas, das
quais se tiram frechais e tirantes para engenhos de cem palmos, e
de cento e vinte de comprido e dois de largo, palmo e meio afora
o delgado da ponta, que serve para outras coisas; a qual madeira
serve para toda a obra das casas, do que se faz muito tabuado para
elas e para os navios. Esta madeira tem a cor vermelhaça, boa de
lavrar e melhor de serrar. Destas árvores se fazem mastros para
os navios, e se fossem mais leves eram melhores que os de pinho,
por serem mais fortes; as quais árvores são tão roliças, que parecem torneadas. Cria-se entre a casca e o âmago desta árvore uma
matéria grossa e alva, que pega como terebintina; e é da mesma
cor, ainda que mais alva; o que lança dando-lhe piques na casca
em fio, e o mesmo lança ao lavrar e ao serrar, e lança em muita
quantidade; e se toca nas mãos, não se tira senão com azeite; e se
isto não é terebintina, parece que, fazendo-lhe algum cozimento,
que engrossará e coalhará como resina, que servirá para brear os
navios, de que se fará muita quantidade, por haver muita soma
destas árvores à borda d’água, e cada uma deita muita matéria
desta.
Guanamdi é uma árvore comprida, e não muito grossa, cuja
madeira é amarelada, que serve para obra de casas em parte onde
lhe não toque a água; a casca desta árvore é muito amarela por
dentro e entre ela e o pau lança um leite grosso, e de cor amarela
muito fina, o qual pega como visco; e com ele armam os moços
aos pássaros; da qual madeira se não faz conta, nem se aproveitam
dela senão em obras de pouca dura; as quais são muito compridas,
direitas e roliças, de que se fazem mastros para navios.