Segunda parte - Capítulo XXXVIII
Que trata das raízes da mandioca e do para que servem.
As raízes da mandioca comem-nas as vacas, éguas, ovelhas,
cabras, porcos e a caça do mato, e todos engordam com elas comendo-as cruas, e se as comem os índios, ainda que sejam assadas,
morrem disso por serem muito peçonhentas; e para se aproveitarem os índios e mais gente destas raízes, depois de arrancadas
rapam-nas muito bem até ficarem alvíssimas, o que fazem com
cascas de ostras, e depois de lavadas ralam-nas em uma pedra ou
ralo, que para isso têm, e, depois de bem raladas, espremem esta
massa em um engenho de palma, a que chamam tapeti, que lhe
faz lançar a água que tem toda fora, e fica essa massa toda muito
enxuta, da qual se faz a farinha que se come, que cozem em um
alguidar para isso feito, no qual deitam esta massa e a enxugam
sobre o fogo, onde uma índia a mexe com um meio cabaço, como
quem faz confeitos, até que fica enxuta e sem nenhuma umidade,
e fica como cuscuz, mas mais branca, e desta maneira se come, é
muito doce e saborosa. Fazem mais desta massa, depois de espremida, umas filhós, a que chamam beijus, estendendo-a no alguidar sobre o fogo, de maneira que ficam tão delgadas como filhós
mouriscas, que se fazem de massa de trigo, mas ficam tão iguais
como obreias, as quais se cozem neste alguidar até que ficam muito secas e torradas.
Destes beijus são mui saborosos, sadios e de boa digestão,
que é o mantimento que se usa entre gente de primor, o que foi
inventado pelas mulheres portuguesas, que o gentio não usava
deles. Fazem mais desta mesma massa tapiocas, as quais são grossas como filhós de polme e moles, e fazem-se no mesmo alguidar
como os beijus, mas não são de tão boa digestão, nem tão sadios;
e querem-se comidas quentes; com leite têm muita graça; e com
açúcar clarificado também.