Segunda parte - Capítulo XXXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 113 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXXVIII

Que trata das raízes da mandioca e do para que servem.

As raízes da mandioca comem-nas as vacas, éguas, ovelhas,

cabras, porcos e a caça do mato, e todos engordam com elas comendo-as cruas, e se as comem os índios, ainda que sejam assadas,

morrem disso por serem muito peçonhentas; e para se aproveitarem os índios e mais gente destas raízes, depois de arrancadas

rapam-nas muito bem até ficarem alvíssimas, o que fazem com

cascas de ostras, e depois de lavadas ralam-nas em uma pedra ou

ralo, que para isso têm, e, depois de bem raladas, espremem esta

massa em um engenho de palma, a que chamam tapeti, que lhe

faz lançar a água que tem toda fora, e fica essa massa toda muito

enxuta, da qual se faz a farinha que se come, que cozem em um

alguidar para isso feito, no qual deitam esta massa e a enxugam

sobre o fogo, onde uma índia a mexe com um meio cabaço, como

quem faz confeitos, até que fica enxuta e sem nenhuma umidade,

e fica como cuscuz, mas mais branca, e desta maneira se come, é

muito doce e saborosa. Fazem mais desta massa, depois de espremida, umas filhós, a que chamam beijus, estendendo-a no alguidar sobre o fogo, de maneira que ficam tão delgadas como filhós

mouriscas, que se fazem de massa de trigo, mas ficam tão iguais

como obreias, as quais se cozem neste alguidar até que ficam muito secas e torradas.

Destes beijus são mui saborosos, sadios e de boa digestão,

que é o mantimento que se usa entre gente de primor, o que foi

inventado pelas mulheres portuguesas, que o gentio não usava

deles. Fazem mais desta mesma massa tapiocas, as quais são grossas como filhós de polme e moles, e fazem-se no mesmo alguidar

como os beijus, mas não são de tão boa digestão, nem tão sadios;

e querem-se comidas quentes; com leite têm muita graça; e com

açúcar clarificado também.

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