Primeira parte - Capítulo XXVIII
Em que se declara como Francisco Pereira Coutinho foi povoar a
Bahia de Todos os Santos e os trabalhos que nisso teve.
Quem quiser saber quem foi Francisco Pereira Coutinho, leia
os livros da Índia, e sabe-lo-á; e verão seu grande valor e heroicos
feitos, dignos de diferente descanso do que teve na conquista do
Brasil, onde lhe coube por sorte a capitania da Bahia de Todos os
Santos, de que lhe fez mercê El-Rei D. João III, de gloriosa memória, pela primeira vez, da terra que há da ponta do Padrão até o Rio
de São Francisco, ao longo do mar; e, para o sertão, de toda a terra
que couber na demarcação deste Estado, e lhe fez mercê da terra
da Bahia com seus recôncavos. E como este esforçado capitão tinha ânimo incansável, não receou de ir povoar a sua capitania em
pessoa, e fez-se prestes com muitos moradores casados e outros
solteiros, que embarcou em uma armada, que fez à sua custa, com
a qual partiu do porto de Lisboa. E com bom vento fez a sua viagem até entrar na Bahia e desembarcou na ponta do Padrão dela
para dentro, e fortificou-se, onde agora chamam a Vila Velha, no
qual sítio fez uma povoação e fortaleza sobre o mar, onde esteve
de paz com o gentio os primeiros anos, no qual tempo os moradores fizeram suas roças e lavouras. Desta povoação para dentro fizeram uns homens poderosos, que com ele foram, dois engenhos
de açúcar, que depois foram queimados pelo gentio, que se alevantou, e destruiu todas as roças e fazendas, pelas quais mataram
muitos homens, e nos engenhos, quando deram neles. Pôs este
alevantamento a Francisco Pereira em grande aperto; porque lhe
cercaram a vila e fortaleza, tomando-lhe a água e mais mantimentos, os quais neste tempo lhe vinham por mar da capitania dos
Ilhéus, os quais iam buscar da vila as embarcações, com grande
risco dos cercados, que estiveram nestes trabalhos, ora cercados,
ora com tréguas, sete ou oito anos, nos quais passaram grandes
fomes, doenças e mil infortúnios, a quem este gentio tupinambá
matava gente cada dia, com o que se ia apouquentando muito;
onde mataram um seu filho bastardo e alguns parentes e outros
homens de nome, com o que a gente, que estava com Francisco
Pereira, desesperada de poder resistir tantos anos a tamanha e tão
apertada guerra, se determinou com ele apertando-o que ordenasse de os pôr em salvo, antes que se acabasse de consumir em
poder de inimigos tão cruéis, que ainda não acabavam de matar
um homem, quando o espedaçavam e comiam. E vendo este capitão sua gente, que já era mui pouca, tão determinada, ordenou
de a pôr em salvo e passou-se por mar com ela nuns caravelões
que tinha, para a capitania dos Ilhéus; do que se espantou o gentio muito, e arrependido da ruim vizinhança que lhe tinha feito,
movido também de seu interesse, vendo que como se foram os
portugueses, lhe ia faltando os resgates que eles lhes davam a
troco de mantimentos, ordenaram de mandar chamar Francisco
Pereira, mandando-lhes prometer toda a paz e boa amizade, o qual
recado foi dele festejado, e embarcou-se logo com alguma gente
em um caravelão que tinha, e outro em que vinha Diogo Álvares,
de alcunha “o Caramuru”, grande língua do gentio, e partiu-se
para a Bahia, e querendo entrar pela barra adentro, lhe sobreveio
muito vento e tormentoso, que o lançou sobre os baixos da Ilha de
Taparica, onde deu à costa; salvou-se a gente toda deste naufrágio,
mas não das mãos dos tupinambás, que viviam nesta ilha, os quais
se ajuntaram, e à traição mataram a Francisco Pereira e à gente
do seu caravelão, do que escapou Diogo Álvares com os seus com
boa linguagem. Desta maneira acabou às mãos dos tupinambás o
esforçado cavaleiro Francisco Pereira Coutinho, cujo esforço não
puderam render os rumes e malabares da Índia, e foi rendido destes bárbaros, o qual não somente gastou a vida nesta pretensão,
mas quanto em muitos anos ganhou na índia com tantas lançadas e espingardadas, e o que tinha em Portugal, com o que deixou
sua mulher e filhos postos no hospital.