Segunda parte - Capítulo CIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 184 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo CIX

Em que se declara a qualidade das cobras, lagartos e outros bichos.

Agora cabe aqui dizermos que cobras são estas do Brasil, de que

tanto se fala em Portugal e com razão, porque tantas e tão estranhas, não se sabe onde as haja.

Comecemos logo a dizer das cobras a que os índios chamam

jiboia, das quais há muitas de cinquenta e sessenta palmos de

comprido, e daqui para baixo. Estas andam nos rios e lagoas, onde

tomam muitos porcos da água, que comem; e dormem em terra,

onde tomam muitos porcos, veados e outra muita caça, o que engolem sem mastigar, nem espedaçar; e não há dúvida senão que

engolem uma anta inteira, e um índio; o que fazem porque não

têm dentes, e entre os queixos lhes moem os ossos para os poderem engolir. E para matar uma anta ou um índio, ou qualquer

caça, cingem-se com ela muito bem, e como têm segura a presa,

buscam-lhe o sesso com a ponta do rabo, por onde o metem até

que matam o que têm abarcado; e como têm morta a caça, moem-

-na entre os queixos para a poder melhor engolir. E como têm a

anta, ou outra coisa grande que não podem digerir, empanturram

de maneira que não podem andar. E como se sentem pesadas

lançam-se ao sol como mortas, até que lhes apodrece a barriga, e o

que têm nela; do que dá o faro logo a uns pássaros que se chamam

urubus, e dão sobre elas comendo-lhes a barriga com o que têm

dentro, e tudo o mais, por estar podre; e não lhes deixam senão

o espinhaço, que está pegado na cabeça e na ponta do rabo, e é

muito duro; e como isto fica limpo da carne toda, vão-se os pássaros; e torna-lhes a crescer a carne nova, até ficar a cobra em sua

perfeição; e assim como lhes vai crescendo a carne, começam a

bulir com o rabo, e tornam a reviver, ficando como dantes; o que

se tem por verdade, por se ter tomado disto muitas informações

dos índios e dos línguas que andam por entre eles no sertão, os

quais afirmam assim.

E um Jorge Lopes, almoxarife da capitania de São Vicente,

grande língua, e homem de verdade, afirmava que indo para uma

aldeia do gentio no sertão, achara uma cobra destas no caminho,

que tinha liado três índios para os matar, os quais livrara deste

perigo ferindo a cobra com a espada por junto da cabeça e do rabo,

com o que ficou sem força para os apertar, e que os largara; e que

acabando de matar esta cobra, ele lhe achara dentro quatro porcos, a qual tinha mais de sessenta palmos de comprido; e junto

do curral de Garcia de Ávila, na Bahia, andavam duas cobras que

lhe matavam e comiam as vacas, o qual afirmou que adiante dele

lhe saíra um dia uma, que remeteu a um touro, e que lho levou

para dentro de uma lagoa; a que acudiu um grande lebréu, ao qual

a cobra arremeteu e engoliu logo; e não pôde levar o touro para

baixo pelo impedimento que lhe tinha feito o lebréu; o qual touro

saiu acima da água depois de afogado; e afirmou que neste mesmo

lugar mataram seus vaqueiros outra cobra que tinha noventa e

três palmos, e pesava mais de oito arrobas; e eu vi uma pele de

uma cobra destas que tinha quatro palmos de largo. Estas cobras

têm as peles cheias de escamas verdes, amarelas e azuis, das quais

tiram logo uma arroba de banha da barriga, cuja carne os índios

têm em muita estima, e os mamelucos, por acharem-na muito

saborosa.

1/1
Menu

Fazer anotação