Primeira parte - Capítulo XIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 20 de 271
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Primeira parte - Capítulo XIX

Que trata de quem são estes caetés, que foram moradores na costa de

Pernambuco.

Parece que não é bem que passemos adiante do Rio de São

Francisco sem dizermos que gentio é este caeté, que tanto mal tem

feito aos portugueses nesta costa, o que agora cabe dizer deles.

Este gentio, nos primeiros anos da conquista deste estado do

Brasil, senhoreou desta costa da boca do Rio de São Francisco até

o Rio Paraíba, onde sempre teve guerra cruel com os potiguares,

e se matavam e comiam uns aos outros em vingança de seus

ódios, para execução da qual entravam muitas vezes pela terra

dos potiguares e lhes faziam muito dano. Da banda do Rio de São

Francisco guerreavam estes potiguares em suas embarcações com

os tupinambás, que viviam de outra parte do rio, em cuja terra

entravam a fazer seus saltos, onde cativavam muitos, que comiam

sem lhes perdoar.

As embarcações de que este gentio usava eram de uma palha

comprida como a das esteiras de tábua que fazem em Santarém, a

que eles chamam periperi, a qual palha fazem em molhos muito

apertados, com umas varas como vime, a que eles chamam timbós, que são muito brandas e rijas, e com estes molhos atados em

umas varas grossas faziam uma feição de embarcações, em que

cabiam dez a doze índios, que se remavam muito bem, e nelas

guerreavam com os tupinambás neste Rio de São Francisco, e se

faziam uns a outros muito dano. E aconteceu por muitas vezes fazerem os caetés desta palha tamanhas embarcações que vinham

nelas ao longo da costa fazer seus saltos aos tupinambás junto da

Bahia, que são cinquenta léguas. Pela parte do sertão, confinava

este gentio com os tapuias e tupinaés, e se faziam cruéis guerras,

para cujas aldeias ordinariamente havia fronteiros, que as corriam

e salteavam. E quando os caetés matavam, ou cativavam alguns

contrários destes, tinham-no por mor honra, que não quando faziam outro tanto aos potiguares nem aos tupinambás. Este gentio

é da mesma cor baça, e tem a vida e costumes dos potiguares e a

mesma língua, que é em tudo como a dos tupinambás, em cujo

título se dirá muito de suas gentilidades.

São estes caetés mui belicosos e guerreiros, mas mui atraiçoados, e sem nenhuma fé nem verdade, o qual fez os danos que fica

declarado à gente da nau do bispo, a Duarte Coelho, e a muitos

navios e caravelões que se perderam nesta costa, dos quais não

escapou pessoa nenhuma, que não matassem e comessem, cujos

danos Deus não permitiu que durassem mais tempo; mas ordenou de os destruir desta maneira. Confederaram-se os tupinambás seus vizinhos com os tupinaés pelo sertão, e ajuntaram-se uns

com os outros pela banda de cima, de onde os tapuias também

apertavam estes caetés, e deram-lhe nas costas, e de tal feição os

apertaram, que os fizeram descer todos para baixo, junto do mar,

onde os acabaram de desbaratar; e os que não puderam fugir para

a Serra do Aquetiba não escaparam de mortos ou cativos. Destes

cativos iam comendo os vencedores quando queriam fazer suas

festas, e venderam deles aos moradores de Pernambuco e aos da

Bahia infinidade de escravos a troco de qualquer coisa, ao que iam

ordinariamente caravelões de resgate, e todos vinham carregados

desta gente, a qual Duarte Coelho de Albuquerque por sua parte

acabou de desbaratar.

E desta maneira se consumiu este gentio, do qual não há agora

senão o que se lançou muito pela terra adentro, ou se misturou

com seus contrários sendo seus escravos, ou se aliaram por ordem

de seus casamentos. Por natureza, são estes caetés grandes músicos

e amigos de bailar, são grandes pescadores de linha e nadadores;

também são mui cruéis uns para os outros para se venderem, o

pai aos filhos, os irmãos e parentes uns aos outros; e de maneira

são cruéis, que aconteceu o ano de 1571 no Rio de São Francisco

estando nele algumas embarcações da Bahia resgatando com este

gentio, em uma de Rodrigo Martins estavam alguns escravos resgatados, em que entrava uma índia caeté, a qual enfadada de lhe

chorar uma criança sua filha a lançou no rio, onde andou de baixo

para cima um pedaço sem se afogar, até que de outra embarcação

se lançou um índio a nado, por mandado de seu senhor, que a foi

tirar, onde a batizaram e durou depois alguns dias.

E como no título dos tupinambás se conta por extenso a vida

e costumes, que toca a maior parte do gentio que vive na costa do

Brasil, temos que basta o que está dito até agora dos caetés.

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