Primeira parte - Capítulo XIX
Que trata de quem são estes caetés, que foram moradores na costa de
Pernambuco.
Parece que não é bem que passemos adiante do Rio de São
Francisco sem dizermos que gentio é este caeté, que tanto mal tem
feito aos portugueses nesta costa, o que agora cabe dizer deles.
Este gentio, nos primeiros anos da conquista deste estado do
Brasil, senhoreou desta costa da boca do Rio de São Francisco até
o Rio Paraíba, onde sempre teve guerra cruel com os potiguares,
e se matavam e comiam uns aos outros em vingança de seus
ódios, para execução da qual entravam muitas vezes pela terra
dos potiguares e lhes faziam muito dano. Da banda do Rio de São
Francisco guerreavam estes potiguares em suas embarcações com
os tupinambás, que viviam de outra parte do rio, em cuja terra
entravam a fazer seus saltos, onde cativavam muitos, que comiam
sem lhes perdoar.
As embarcações de que este gentio usava eram de uma palha
comprida como a das esteiras de tábua que fazem em Santarém, a
que eles chamam periperi, a qual palha fazem em molhos muito
apertados, com umas varas como vime, a que eles chamam timbós, que são muito brandas e rijas, e com estes molhos atados em
umas varas grossas faziam uma feição de embarcações, em que
cabiam dez a doze índios, que se remavam muito bem, e nelas
guerreavam com os tupinambás neste Rio de São Francisco, e se
faziam uns a outros muito dano. E aconteceu por muitas vezes fazerem os caetés desta palha tamanhas embarcações que vinham
nelas ao longo da costa fazer seus saltos aos tupinambás junto da
Bahia, que são cinquenta léguas. Pela parte do sertão, confinava
este gentio com os tapuias e tupinaés, e se faziam cruéis guerras,
para cujas aldeias ordinariamente havia fronteiros, que as corriam
e salteavam. E quando os caetés matavam, ou cativavam alguns
contrários destes, tinham-no por mor honra, que não quando faziam outro tanto aos potiguares nem aos tupinambás. Este gentio
é da mesma cor baça, e tem a vida e costumes dos potiguares e a
mesma língua, que é em tudo como a dos tupinambás, em cujo
título se dirá muito de suas gentilidades.
São estes caetés mui belicosos e guerreiros, mas mui atraiçoados, e sem nenhuma fé nem verdade, o qual fez os danos que fica
declarado à gente da nau do bispo, a Duarte Coelho, e a muitos
navios e caravelões que se perderam nesta costa, dos quais não
escapou pessoa nenhuma, que não matassem e comessem, cujos
danos Deus não permitiu que durassem mais tempo; mas ordenou de os destruir desta maneira. Confederaram-se os tupinambás seus vizinhos com os tupinaés pelo sertão, e ajuntaram-se uns
com os outros pela banda de cima, de onde os tapuias também
apertavam estes caetés, e deram-lhe nas costas, e de tal feição os
apertaram, que os fizeram descer todos para baixo, junto do mar,
onde os acabaram de desbaratar; e os que não puderam fugir para
a Serra do Aquetiba não escaparam de mortos ou cativos. Destes
cativos iam comendo os vencedores quando queriam fazer suas
festas, e venderam deles aos moradores de Pernambuco e aos da
Bahia infinidade de escravos a troco de qualquer coisa, ao que iam
ordinariamente caravelões de resgate, e todos vinham carregados
desta gente, a qual Duarte Coelho de Albuquerque por sua parte
acabou de desbaratar.
E desta maneira se consumiu este gentio, do qual não há agora
senão o que se lançou muito pela terra adentro, ou se misturou
com seus contrários sendo seus escravos, ou se aliaram por ordem
de seus casamentos. Por natureza, são estes caetés grandes músicos
e amigos de bailar, são grandes pescadores de linha e nadadores;
também são mui cruéis uns para os outros para se venderem, o
pai aos filhos, os irmãos e parentes uns aos outros; e de maneira
são cruéis, que aconteceu o ano de 1571 no Rio de São Francisco
estando nele algumas embarcações da Bahia resgatando com este
gentio, em uma de Rodrigo Martins estavam alguns escravos resgatados, em que entrava uma índia caeté, a qual enfadada de lhe
chorar uma criança sua filha a lançou no rio, onde andou de baixo
para cima um pedaço sem se afogar, até que de outra embarcação
se lançou um índio a nado, por mandado de seu senhor, que a foi
tirar, onde a batizaram e durou depois alguns dias.
E como no título dos tupinambás se conta por extenso a vida
e costumes, que toca a maior parte do gentio que vive na costa do
Brasil, temos que basta o que está dito até agora dos caetés.