Segunda parte - Capítulo XXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 101 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo XXVI

Em que se declara a grandeza do Rio Paraguaçu e os seus engenhos

na terra d’El-Rei.

Este Rio de Paraguaçu é mui caudaloso e terá na boca de terra a

terra um tiro de falcão, pelo qual entra a maré, que sobe por ele acima seis léguas; e de uma banda e da outra até a Ilha dos Franceses,

que são duas léguas, é a terra alta e fraca e mal povoada, salvo de

alguns currais de vacas. Da barra deste rio para dentro está uma

ilha de meia légua de comprido e de quinhentas braças de largo e

há partes de menos, a qual se chama de Gaspar Dias Barbosa, cuja

terra é baixa e fraca. E tornando acima no cabo destas duas léguas

está uma ilha, que chamam dos Franceses, mui alterosa, que terá

em roda seiscentas braças, onde eles em tempos atrás chegavam

com suas naus por ter fundo para isso, e estavam nesta ilha seguros do gentio, com o qual faziam dela seus resgates à vontade.

Desta ilha para cima se abre uma formosa baía, até a boca do Rio

da Água Doce, que serão duas léguas; e defronte desta Ilha dos

Franceses está uma casa de meles de Antônio Peneda. E saindo

desta ilha para fora, pondo a vista sobre a mão direita, faz este rio

um recôncavo de três léguas, coisa mui formosa, a que chamam

Uguape; e olhando pela mão esquerda se estende perto de duas

léguas, parte das quais estão ocupadas com três ilhéus despovoados, mas cheios de arvoredo, que se podem povoar, e de uma Ilha

de Antônio de Paiva, que está aproveitada com canaviais, onde a

terra firme se vai apertando, que ficará acima desta ilha o rio de

terra a terra uma meia légua. Mas, tornando à casa de meles de

Antônio Peneda, virando dela para a enseada de Uguape, sobre a

mão direita, daqui a duas léguas, é a terra fraca e não serve senão

para currais de vacas. No meio deste caminho está uma ilha rasa,

que Antônio Dias Adorno teve já cheia de mantimentos; além da

qual está outra ilha, que chamam da Ostra; de onde se tem tirado

tanta quantidade que se fizeram de ostras mais de dez mil moios

de cal e vai-se cada dia tirando tanta que faz espanto, sem se acabar.

No cabo destas léguas começa a terra boa, que está povoada até o

engenho de Antônio Lopes Ulhoa, de muitos canaviais e formosas fazendas, no que haverá espaço de uma légua. Este engenho

mói com grande aferida, e está mui ornado com edifícios de pedra

e cal, e a ribeira com que mói se chama Ubirapitanga. E indo deste

engenho para cima, sobre a mão direita ao longo do salgado, vai

povoada a terra de fazendas e canaviais, em que entra uma casa de

meles de Antônio Rodrigues, e andando assim até junto do Rio da

Água Doce do Paraguaçu, que podem ser duas léguas, vão dar com

o notável e bem assentado engenho de João de Brito de Almeida,

que está senhoreando esta baía com a vista, o qual engenho é de

pedra e cal, e tem grandes edifícios de casas, e muito formosa igreja de São João, de pedra e cal, o qual engenho tem mui grande

aferida e mói com ribeira que vem a este sítio por uma levada de

uma légua, feita toda por pedra viva ao picão, com suas açudadas,

com muros e botaréus de pedra e cal, coisa muito forte. E antes de

se chegar a este engenho, junto da terra dele três ilhéus de areia

pequenos, cheios de mangues, onde se vai mariscar. Acima deste

engenho um tiro de berço dele, entra nesta baía, que este rio aqui

faz, o Rio da Água Doce do Paraguaçu, o qual terá na boca de terra

a terra um tiro de falcão de espaço, e navega-se por ele acima até

a cachoeira que pode ser a três léguas, com barcos grandes; e indo

por ele acima sobre a mão direita tem poucas fazendas, por ser a

terra do engenho de João de Brito. E antes de chegarem à cachoeira, à vista dele, está outro engenho de água mui bem acabado, o

qual fez um Rodrigo Martins, mameluco, por sua conta, e de Luís

de Brito de Almeida, junto do qual vivem muitos mamelucos com

suas fazendas.

1/1
Menu

Fazer anotação