Segunda parte - Capítulo XC
Que trata de alguns bichos menores que têm asas e têm alguma semelhança de aves.
Como foi forçado dizer-se de todas as aves como fica dito, convém que junto delas se diga de outros bichos que têm asas e mais
aparência de aves que de alimárias, ainda que sejam imundícies, e
pouco proveitosas ao serviço dos homens.
Comecemos logo dos gafanhotos, a que o gentio chama tacura,
os quais se criam na Bahia muito grandes, e andam muitas vezes
em bandos, os quais são da cor dos que há na Espanha, e há outros
pintados, outros verdes e de diferentes cores, e têm maiores asas
que os da Espanha, e quando voam abrem-nas como pássaros e
não são muito daninhos.
Há outros bichos, a que os índios chamam tacuranda, e em
Portugal, saudes, os quais são muito formosos, pintados e grandes,
mas não fazem mal a nada.
Nas tocas das árvores se criam uns bichinhos como formigas,
com asas brancas, que não saem do ninho senão depois que chove
muito, e ao primeiro dia de sol, a que os índios chamam arará; e
quando saem fora é voando; e sai tanta multidão que cobre o ar, e
não torna ao lugar donde saiu, e perde-se com o vento.
As borboletas a que chamam mariposa, chamam os índios sarará; as quais andam de noite de redor das candeias, maiormente
em casas palhoças do mato, e em noites de escuro, e são tão perluxas às vezes que não há quem se valha com elas, porque se vêm ao
rosto e dão enfadamento às ceias, porque se põem no comer, e não
deixam as candeias dar seu lume, o que acontece em povoado.
Há outra casta de borboletas grandes, umas brancas e outras
amarelas, e outras pintadas, muito formosas à vista, a que os índios chamam panamá, as quais vêm às vezes de passagem no verão em tanta multidão, que cobrem o ar, e põem logo todo um dia
em passar por cima da cidade do Salvador à outra banda da Bahia,
que são nove ou dez léguas de passagem. Estas borboletas fazem
muito dano nos algodões quando estão em flor.