Segunda parte - Capítulo XCIX
Que trata da natureza e estranheza do jagurecaca.
Jagurecaca é um animal do tamanho de um gato grande; tem a
cor pardaça e o cabelo comprido, e os pés e mãos da feição dos bugios; o rosto como cão, e o rabo comprido, o qual se mantém das
frutas do mato. Anda sempre pelo chão, onde pare uma só cria, o
qual é estranho e fedorento, que por onde quer que passa deixa
tamanho fedor que, um tiro de pedra afastado de uma banda e da
outra, não há quem o possa sofrer, e não há quem por ali possa
passar mais de dois meses, por ficar tudo tão empeçonhentado
com o mau cheiro que se não pode sofrer. Deste animal pegam
os cães quando vão à caça, mas vão-se logo lançar na água, e
esfregam-se com a terra por tirarem o fedor de si, o que fazem por
muitos dias sem lhes aproveitar, e o caçador fica de maneira que
por mais que se lave fica sempre com este terrível cheiro, que lhe
dura três e quatro meses; e “como este bicho se vê em pressa perseguido
dos cães, lança de si tanta ventosidade, e tão peçonhenta, que perfuma
desta maneira a quem lhe fica por perto; e com estas armas se defendem
das onças e de outros animais ”, quando se veem perseguidos deles,
cuja artilharia tem tanta força que a onça ou outros inimigos que
os buscam se tornam e os deixam; e vão-se logo lavar e esfregar
pela terra, por tirar de si tão terrível cheiro. E aconteceu a um português que, encontrando com um destes bichos, que trazia o seu
caçador do mato morto para mezinha, ficou tão fedorento que,
não podendo sofrer-se a si, se fez muito amarelo, e se foi para casa
doente do cheiro que em si trazia, que lhe durou muitos dias. A
carne deste bicho é boa para estancar câmaras de sangue; mas a
casa onde está fede toda a vida, pelo que as índias a têm assada,
muito embrulhada em folhas, depois de bem seca ao ar do fogo; e
a têm no fumo para se conservar; mas nem isso basta para deixar
de feder na rua, enquanto está na casa.