Primeira parte - Capítulo XXXI
Em que se contém como se começou de povoar a capitania dos Ilhéus
por ordem de Jorge de Figueiredo Correa.
Quando El-Rei D. João III repartiu parte da terra da costa do
Brasil em capitanias, fez mercê de uma delas, com cinquenta
léguas de costa, a Jorge de Figueiredo Correa, escrivão da sua
Fazenda; a qual se começa da ponta da Baía do Salvador da banda
do sul, que se entende da Ilha de Tinharé (como está julgado por
sentença que sobre este caso deu Mem de Sá sendo governador,
e Brás Fragoso sendo ouvidor-geral e provedor-mor do Brasil) e
vai correndo ao longo da costa cinquenta léguas. E como Jorge
de Figueiredo por respeito de seu cargo não podia ir povoar esta
capitania em pessoa, ordenou de o mandar fazer por outrem,
para o que fez prestes à custa de sua fazenda uma frota de navios
com muitos moradores, providos do necessário para a nova povoação. E mandou por seu lugar-tenente a um castelhano muito
esforçado, experimentado e prudente, que se chamava Francisco
Romeiro, o qual partiu do porto de Lisboa com sua frota, e fez sua
viagem para esta costa do Brasil, e foi ancorar e desembarcar no
porto de Tinharé, e começou a povoar em cima do morro de São
Paulo, do qual sítio se não satisfez. E como foi bem visto e descoberto do Rio dos Ilhéus, que assim se chama pelos que tem defronte da barra, donde a capitania tomou o nome, se passou com toda
a gente para este rio, onde se fortificou e assentou a vila de São
Jorge, onde agora está, na qual, nos primeiros anos, teve muitos
trabalhos de guerra com o gentio; mas como eram tupiniquins,
gente mais bem acondicionada que o outro gentio, fez pazes com
eles, e fez-lhe tal companhia que com seu favor foi a capitania
em grande crescimento, onde homens ricos de Lisboa mandaram
fazer engenhos de açúcar, com o que a terra se enobreceu muito;
a qual capitania Jerônimo de Alarcão, filho segundo de Jorge de
Figueiredo, com licença de S. A. vendeu a Lucas Giraldes, que nela
meteu grande cabedal, com que a engrandeceu, de maneira que
veio a ter oito ou nove engenhos. Mas deu nesta terra esta praga
dos aimorés, de feição que não há aí já mais que seis engenhos, e
estes não fazem açúcar, nem há morador que ouse plantar canas,
porque em indo os escravos ou homens ao campo não escapam
a estes alarves, com medo dos quais foge a gente dos Ilhéus para
a Bahia, e tem a terra quase despovoada, a qual se despovoará de
todo, de Sua Majestade com muita instância não lhe valer. Esta
vila foi muito abastada e rica, e teve quatrocentos ou quinhentos
vizinhos; na qual está um mosteiro dos padres da companhia, e
outro que se agora começa, de São Bento, e não tem nenhuma fortificação nem modo para se defender de quem a quiser afrontar.