Segunda parte - Capítulo XLV
Em que se contém o milho que se dá na Bahia e para o que serve.
Dá-se outro mantimento em todo o Brasil, natural da mesma
terra, a que os índios chamam ubatim, que é o milho de Guiné,
que em Portugal chamam zaburro. As espigas que este milho dá
são de mais de palmo, cuja árvore é mais alta que um homem, e
da grossura das canas da roça, com nós e vãs por dentro; e dá três,
quatro e mais espigas destas em cada vara. Este milho se planta
por entre a mandioca e por entre as canas novas de açúcar, e colhe-
-se a novidade aos três meses, uma em agosto e outra em janeiro.
Este milho come o gentio assado por fruto, e fazem seus vinhos
com ele cozido, com o qual se embebedam, e os portugueses que
comunicam com o gentio, e os mestiços não se desprezam dele, e
bebem-no mui valentemente. Costuma este gentio dar suadouros
com este milho cozido aos doentes de boubas, os quais tomam
com o bafo dele, com o que se acham bem; dos quais suadouros
se acham sãos alguns homens brancos e mestiços que se valem
deles; o que parece mistério porque este milho por natureza é frio.
Plantam os portugueses este milho para mantença dos cavalos e
criação das galinhas e cabras, ovelhas e porcos; e aos negros de
Guiné o dão por fruta, os quais o não querem por mantimento,
sendo o melhor da sua terra; a cor geral deste milho é branca; há
outro almecegado, outro preto, outro vermelho, e todo se planta a
mão, e têm uma mesma qualidade.
Há outra casta de milho que sempre é mole, do qual fazem os
portugueses muito bom pão e bolos com ovos e açúcar. O mesmo
milho quebrado e pisado no pilão é bom para se cozer com caldo
de carne, ou pescado, e de galinha, o qual é mais saboroso que o
arroz, e de uma casta e outra se curam ao fumo, onde se conserva
para se não danar; e dura de um ano para outro.