Segunda parte - Capítulo XLV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 120 de 271
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Segunda parte - Capítulo XLV

Em que se contém o milho que se dá na Bahia e para o que serve.

Dá-se outro mantimento em todo o Brasil, natural da mesma

terra, a que os índios chamam ubatim, que é o milho de Guiné,

que em Portugal chamam zaburro. As espigas que este milho dá

são de mais de palmo, cuja árvore é mais alta que um homem, e

da grossura das canas da roça, com nós e vãs por dentro; e dá três,

quatro e mais espigas destas em cada vara. Este milho se planta

por entre a mandioca e por entre as canas novas de açúcar, e colhe-

-se a novidade aos três meses, uma em agosto e outra em janeiro.

Este milho come o gentio assado por fruto, e fazem seus vinhos

com ele cozido, com o qual se embebedam, e os portugueses que

comunicam com o gentio, e os mestiços não se desprezam dele, e

bebem-no mui valentemente. Costuma este gentio dar suadouros

com este milho cozido aos doentes de boubas, os quais tomam

com o bafo dele, com o que se acham bem; dos quais suadouros

se acham sãos alguns homens brancos e mestiços que se valem

deles; o que parece mistério porque este milho por natureza é frio.

Plantam os portugueses este milho para mantença dos cavalos e

criação das galinhas e cabras, ovelhas e porcos; e aos negros de

Guiné o dão por fruta, os quais o não querem por mantimento,

sendo o melhor da sua terra; a cor geral deste milho é branca; há

outro almecegado, outro preto, outro vermelho, e todo se planta a

mão, e têm uma mesma qualidade.

Há outra casta de milho que sempre é mole, do qual fazem os

portugueses muito bom pão e bolos com ovos e açúcar. O mesmo

milho quebrado e pisado no pilão é bom para se cozer com caldo

de carne, ou pescado, e de galinha, o qual é mais saboroso que o

arroz, e de uma casta e outra se curam ao fumo, onde se conserva

para se não danar; e dura de um ano para outro.

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