Primeira parte - Capítulo XLVI
Em que se declara, em suma, quem são os papanases e seus costumes.
Parece conveniente este lugar para brevemente se dizer quem
são os papanases, de quem atrás fizemos menção, e porque passamos o limite de sua vivenda nos tempos antigos, não é bem que os
guardemos para mais longe.
Este gentio, como fica dito, viveu ao longo do mar entre a capitania de Porto Seguro e a do Espírito Santo, donde foi lançado, pelos tupiniquins, seus contrários, e pelos goitacases, que também
o eram, e são, hoje, seus inimigos, e uns e outros lhe fizeram tão
cruel guerra que os fizeram sair para o sertão, onde agora têm sua
vivenda, cuja linguagem entendem os tupiniquins e goitacases,
ainda que mal. Este gentio dorme no chão, sobre folhas, como os
goitacases; também não se ocupa em grandes lavouras; mantêm -
-se estes selvagens de caça e peixe do rio, que matam; os quais
são grandes flecheiros e pelejam com arcos e flechas, andam nus
como o mais gentio, não consentem cabelos nenhuns no corpo,
senão os da cabeça, pintam-se e enfeitam-se com penas de cores
dos pássaros; cantam e bailam; têm muitas gentilidades, das que
usam os tupinambás; mas, entre si, têm um costume que não é
tão bárbaro, como todos os outros que todo o gentio costuma, que
é, se um índio destes mata outro da mesma geração em alguma
briga, ou por desastre, são obrigados os parentes do matador a
entregá-lo aos parentes do morto, que logo o afogam e o enterram,
estando uns e outros presentes, e todos neste ajuntamento fazem
grande pranto, comendo e bebendo todos juntos por muitos dias,
e assim ficam todos amigos; e sendo o caso que o matador fuja,
de maneira que os parentes não o possam tomar, lhe tomam um
filho ou filha, se o tem, ou irmão, e se não tem nem um nem outro, entregam pelo matador o parente mais chegado, ao qual não
matam, mas fica cativo do mais próximo parente do morto, e com
isso ficam todos contentes e amigos como o eram antes do acontecimento do morto.