Primeira parte - Capítulo II
Em que se declara a repartição que fizeram os reis católicos de Castela
com El-Rei D. João III de Portugal.
Para se ficar bem entendendo aonde demora e se estende o
Estado do Brasil, convém que em suma declaremos como se avieram os reis na repartição de suas conquistas, o que se fez por esta
maneira. Os reis católicos de Castela, D. Fernando e D. Isabel, sua
mulher, tinham começado de entender no descobrimento das
Índias Ocidentais e algumas ilhas, e porque esperavam de ir este
descobrimento em tanto crescimento como foi, por atalharem as
diferenças que sobre isso se podiam oferecer, concertaram-se com
El-Rei D. João o III de Portugal, se fizesse uma repartição líquida,
para cada um mandar conquistar para sua parte livremente, sem
escrúpulo de se prejudicarem. E, acordados os reis desta maneira,
deram conta deste concerto ao Papa, que, além de aprovar, o louvou muito. E, como tiveram o consentimento de Sua Santidade,
ordenaram a repartição desta concordância, fazendo baliza na
ilha das do Cabo Verde, de barlavento mais ocidental, que se entende a de Santo Antão, e contando dela 21 graus e meio equinociais de dezessete léguas e meia de cada grau, e lançada daqui
uma linha meridiana de norte sul, que ficassem as terras e ilhas
que estavam por descobrir para a parte do oriente, da coroa de
Portugal; e lançada essa linha mental como está declarado, fica
o Estado do Brasil da dita coroa, qual se começa além da ponta
do Rio das Amazonas da banda de oeste, pela terra dos caraíbas,
donde se principia o norte desta província, e indo correndo esta
linha pelo sertão dela ao sul parte o Brasil e conquistas dele além
da Baía de São Matias, por 45 graus pouco mais ou menos, distantes da linha equinocial, e altura do polo antártico, e por esta conta
tem de costa mil e cinquenta léguas, como pelas cartas se pode ver
segundo a opinião de Pedro Nunes, que nesta arte atinou melhor
que todos os do seu tempo.