Primeira parte - Capítulo V
Que declara a costa da ponta do Rio das Amazonas até o do
Maranhão.
A ponta do leste do Rio das Amazonas está em um grau da
banda do sul; dessa ponta ao Rio da Lama há 35 léguas, a qual está
em altura de um grau e três quartos; e ainda que este rio se chame
da Lama, podem entrar por ele adentro e estarem muito seguras
de todo o tempo, naus de 200 tonéis, o qual rio entra pela terra
adentro muitas léguas.
Deste rio à ponta dos baixos são nove léguas, a qual está na
mesma altura de um grau e 3/4. Nessa ponta há abrigada para os
barcos da costa poderem ancorar.
Da ponta dos baixos à ponta do Rio Maranhão são dez léguas,
onde chega a Serra Escalvada, e entre ponta e ponta tem a costa
algumas abrigadas, onde podem ancorar navios da costa, a qual
ponta está em dois graus da banda do sul.
Até aqui se corre a costa noroeste-sueste e toma da quarta de
leste-oeste; e dessa ponta do rio a outra ponta são 17 léguas, a
qual está em altura de dois graus e três quartos. Tem este Rio do
Maranhão na boca – entre ponta e ponta delas para dentro – uma
ilha que se chama das Vacas, que será de três léguas, onde esteve
Aires da Cunha quando se perdeu com sua armada nestes baixos;
e aqui nessa ilha estiveram também os filhos de João de Barros e aí
tiveram povoado, quando também se perderam nos baixos deste
rio, onde fizeram pazes com o gentio tapuia, que tem povoado
parte desta costa, e por este rio acima, onde mandavam resgatar
mantimentos e outras coisas para remédio de sua mantença.
Por este rio entrou um Bastião Marinho, piloto da costa, com
um caravelão, e foi por ele acima algumas vinte léguas, onde
achou muitas ilhas cheias de arvoredo e a terra delas alcantilada
com sofrível fundo; e muitos braços em que entram muitos rios
que se metem neste, o qual afirmou ser toda a terra fresca, cheia
de arvoredo e povoada de gentio, e as ilhas também. Neste rio entra o de Pindaré, que vem de muito longe.
Para se entrar neste Rio do Maranhão, vindo do mar em fora,
há de se chegar bem à terra da banda de leste por fugir dos baixios
e do aparcelado, e quem entrar por entre ela e a ilha entra seguro.
Quem houver de ir deste Rio do Maranhão para o da Lama ou
para o das Amazonas, há de se lançar por fora dos baixios com a
sonda na mão, e não vá por menos de doze braças, porque esta
costa até aqui dez léguas ao mar, vaza e enche nela a maré muito
depressa, e em conjunção de Lua tem grandes macaréus; mas para
bem não se há de cometer o canal de nenhum destes rios senão de
baixa-mar na costa, o que se pode saber pela Lua, o que convém
que seja, pelos grandes perigos que nesta entrada se oferecem, assim de macaréus, como por espraiar e esparcelar o mar oito e dez
léguas da terra, pelo que é forçado a chegar-se à terra de baixa-mar,
pois então se descobre o canal mui bem; e neste Rio do Maranhão
não podem entrar, por este respeito, navios grandes.