Primeira parte - Capítulo V Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 6 de 271
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Primeira parte - Capítulo V

Que declara a costa da ponta do Rio das Amazonas até o do

Maranhão.

A ponta do leste do Rio das Amazonas está em um grau da

banda do sul; dessa ponta ao Rio da Lama há 35 léguas, a qual está

em altura de um grau e três quartos; e ainda que este rio se chame

da Lama, podem entrar por ele adentro e estarem muito seguras

de todo o tempo, naus de 200 tonéis, o qual rio entra pela terra

adentro muitas léguas.

Deste rio à ponta dos baixos são nove léguas, a qual está na

mesma altura de um grau e 3/4. Nessa ponta há abrigada para os

barcos da costa poderem ancorar.

Da ponta dos baixos à ponta do Rio Maranhão são dez léguas,

onde chega a Serra Escalvada, e entre ponta e ponta tem a costa

algumas abrigadas, onde podem ancorar navios da costa, a qual

ponta está em dois graus da banda do sul.

Até aqui se corre a costa noroeste-sueste e toma da quarta de

leste-oeste; e dessa ponta do rio a outra ponta são 17 léguas, a

qual está em altura de dois graus e três quartos. Tem este Rio do

Maranhão na boca – entre ponta e ponta delas para dentro – uma

ilha que se chama das Vacas, que será de três léguas, onde esteve

Aires da Cunha quando se perdeu com sua armada nestes baixos;

e aqui nessa ilha estiveram também os filhos de João de Barros e aí

tiveram povoado, quando também se perderam nos baixos deste

rio, onde fizeram pazes com o gentio tapuia, que tem povoado

parte desta costa, e por este rio acima, onde mandavam resgatar

mantimentos e outras coisas para remédio de sua mantença.

Por este rio entrou um Bastião Marinho, piloto da costa, com

um caravelão, e foi por ele acima algumas vinte léguas, onde

achou muitas ilhas cheias de arvoredo e a terra delas alcantilada

com sofrível fundo; e muitos braços em que entram muitos rios

que se metem neste, o qual afirmou ser toda a terra fresca, cheia

de arvoredo e povoada de gentio, e as ilhas também. Neste rio entra o de Pindaré, que vem de muito longe.

Para se entrar neste Rio do Maranhão, vindo do mar em fora,

há de se chegar bem à terra da banda de leste por fugir dos baixios

e do aparcelado, e quem entrar por entre ela e a ilha entra seguro.

Quem houver de ir deste Rio do Maranhão para o da Lama ou

para o das Amazonas, há de se lançar por fora dos baixios com a

sonda na mão, e não vá por menos de doze braças, porque esta

costa até aqui dez léguas ao mar, vaza e enche nela a maré muito

depressa, e em conjunção de Lua tem grandes macaréus; mas para

bem não se há de cometer o canal de nenhum destes rios senão de

baixa-mar na costa, o que se pode saber pela Lua, o que convém

que seja, pelos grandes perigos que nesta entrada se oferecem, assim de macaréus, como por espraiar e esparcelar o mar oito e dez

léguas da terra, pelo que é forçado a chegar-se à terra de baixa-mar,

pois então se descobre o canal mui bem; e neste Rio do Maranhão

não podem entrar, por este respeito, navios grandes.

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