Primeira parte - Capítulo XXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 27 de 271
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Primeira parte - Capítulo XXVI

Em que se declara a terra e costa de Tatuapara até o Rio de Joanne.

De Tatuapara ao Rio Jacuípe são quatro léguas, as quais ao longo do mar estão ocupadas com currais de gado, por serem de terra

baixa e fraca; os quais currais são de Garcia d’ Ávila e de outras pessoas chegadas à sua casa. De Tatuapara até este rio não há onde

possa entrar um barco, senão neste Rio de Jacuípe e aqui com bonanças ainda com trabalho; mas, atrás uma légua, onde se chama

o porto de Brás Afonso, onde os arrecifes que vêm de Tatuapara fazem uma aberta, podem entrar caravelões, e do arrecife para dentro ficam seguros com todo tempo. Este Rio de Jacuípe se passa de

baixa-mar acima da barra uma légua a vau, ao longo do qual tem o

mesmo Garcia d’ Ávila um curral de vacas. Deste Rio de Jacuípe até

o Rio de Joanne são cinco léguas, até onde são tudo arrecifes, sem

haver onde possa entrar um barco, senão onde chamam o porto

de Arambepe, onde os arrecifes fazem outra aberta, por onde com

bonança podem entrar barcos, e ficar dentro dos arrecifes seguros.

De Jacuípe a Arambepe são duas léguas onde se perdeu a nau

Santa Clara, que ia para a Índia, estando sobre amarra, e foi tanto o tempo que sobreveio, que a fez ir à caceia, que foi forçado

cortarem-lhe o mastro grande, o que não bastou para se remediar,

e os oficiais da nau, desconfiados da salvação, sendo meia-noite,

deram à vela do traquete para ancorarem em terra e salvarem as

vidas, o que lhe sucedeu pelo contrário; porque sendo esta costa

toda limpa, afastada dos arrecifes, foram varar por cima de uma

laje, não se sabendo outra de Pernambuco até a Bahia, a qual laje

está um tiro de falcão ao mar dos arrecifes, onde esta nau se fez

em pedaços, e morreram neste naufrágio passante de trezentos

homens, com Luís de Alter de Andrade, que ia por capitão. Toda

esta terra até o Rio de Joanne, três léguas do mar para o sertão,

está povoada de currais de vacas de pessoas diversas; e nesta

comarca, três léguas do mar, têm os padres da companhia duas

aldeias de índios forros tupinambás e de outras nações, nas quais

terão setecentos homens de peleja pelo menos; os quais os padres

doutrinam, como fica dito, da aldeia de Santo Antônio. Essas outras se dizem, uma de Santo Espírito e a outra de São João, onde

têm grandes igrejas da mesma advocação e recolhimento para

os padres, que nelas residem e para outros que muitas vezes se

vão lá recrear. E à sombra e circuito destas aldeias têm quatro ou

cinco currais de vacas ou mais, que granjeiam, de que se ajudam

a sustentar. Por onde estas aldeias estão é a terra boa, onde se dão

todos os mantimentos da terra muito bem, por ser muito fresca,

com muitas ribeiras de água; neste limite lança o mar fora todos

os anos muito âmbar pelo inverno, que estes índios vão buscar, o

qual dão aos padres. E corre-se esta costa de Tatuapara até este Rio

de Joanne nor-nordeste su-sudoeste.

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