Primeira parte - Capítulo XXVI
Em que se declara a terra e costa de Tatuapara até o Rio de Joanne.
De Tatuapara ao Rio Jacuípe são quatro léguas, as quais ao longo do mar estão ocupadas com currais de gado, por serem de terra
baixa e fraca; os quais currais são de Garcia d’ Ávila e de outras pessoas chegadas à sua casa. De Tatuapara até este rio não há onde
possa entrar um barco, senão neste Rio de Jacuípe e aqui com bonanças ainda com trabalho; mas, atrás uma légua, onde se chama
o porto de Brás Afonso, onde os arrecifes que vêm de Tatuapara fazem uma aberta, podem entrar caravelões, e do arrecife para dentro ficam seguros com todo tempo. Este Rio de Jacuípe se passa de
baixa-mar acima da barra uma légua a vau, ao longo do qual tem o
mesmo Garcia d’ Ávila um curral de vacas. Deste Rio de Jacuípe até
o Rio de Joanne são cinco léguas, até onde são tudo arrecifes, sem
haver onde possa entrar um barco, senão onde chamam o porto
de Arambepe, onde os arrecifes fazem outra aberta, por onde com
bonança podem entrar barcos, e ficar dentro dos arrecifes seguros.
De Jacuípe a Arambepe são duas léguas onde se perdeu a nau
Santa Clara, que ia para a Índia, estando sobre amarra, e foi tanto o tempo que sobreveio, que a fez ir à caceia, que foi forçado
cortarem-lhe o mastro grande, o que não bastou para se remediar,
e os oficiais da nau, desconfiados da salvação, sendo meia-noite,
deram à vela do traquete para ancorarem em terra e salvarem as
vidas, o que lhe sucedeu pelo contrário; porque sendo esta costa
toda limpa, afastada dos arrecifes, foram varar por cima de uma
laje, não se sabendo outra de Pernambuco até a Bahia, a qual laje
está um tiro de falcão ao mar dos arrecifes, onde esta nau se fez
em pedaços, e morreram neste naufrágio passante de trezentos
homens, com Luís de Alter de Andrade, que ia por capitão. Toda
esta terra até o Rio de Joanne, três léguas do mar para o sertão,
está povoada de currais de vacas de pessoas diversas; e nesta
comarca, três léguas do mar, têm os padres da companhia duas
aldeias de índios forros tupinambás e de outras nações, nas quais
terão setecentos homens de peleja pelo menos; os quais os padres
doutrinam, como fica dito, da aldeia de Santo Antônio. Essas outras se dizem, uma de Santo Espírito e a outra de São João, onde
têm grandes igrejas da mesma advocação e recolhimento para
os padres, que nelas residem e para outros que muitas vezes se
vão lá recrear. E à sombra e circuito destas aldeias têm quatro ou
cinco currais de vacas ou mais, que granjeiam, de que se ajudam
a sustentar. Por onde estas aldeias estão é a terra boa, onde se dão
todos os mantimentos da terra muito bem, por ser muito fresca,
com muitas ribeiras de água; neste limite lança o mar fora todos
os anos muito âmbar pelo inverno, que estes índios vão buscar, o
qual dão aos padres. E corre-se esta costa de Tatuapara até este Rio
de Joanne nor-nordeste su-sudoeste.