Primeira parte - Capítulo XXXIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 40 de 271
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Primeira parte - Capítulo XXXIX

Em que se declara quem são os tupiniquins e sua vida e costumes.

Já fica dito como o gentio tupiniquim senhoreou e possuiu a

terra da costa do Brasil, ao longo do mar, do Rio de Camamu até

o Rio de Cricaré, o qual tem agora despovoado toda esta comarca,

fugindo dos tupinambás, seus contrários, que os apertaram por

uma banda, e aos aimorés, que os ofendiam por outra; pelo que se

afastaram do mar, e, fugindo ao mau tratamento que lhes faziam

alguns homens brancos, por serem pouco tementes a Deus. Pelo

que não vivem agora junto do mar mais que os cristãos de que já

fizemos menção. Com este gentio tiveram os primeiros povoadores das capitanias dos Ilhéus e Porto Seguro e os do Espírito Santo,

nos primeiros anos, grandes guerras e trabalhos, de quem receberam muitos danos; mas, pelo tempo adiante, vieram a fazer pazes,

que se cumpriram e guardaram bem de parte a parte, e de então

para agora foram os tupiniquins muito fiéis e verdadeiros aos

portugueses. Este gentio, e os tupinaés, descendem todos de um

tronco, e não se têm por contrários verdadeiros, ainda que muitas

vezes tivessem diferenças e guerras, os quais tupinaés lhe ficavam

nas cabeceiras, pela banda do sertão, com quem a maior parte dos

tupiniquins agora estão misturados. Este gentio é da mesma cor

baça e estatura que o outro gentio de que falamos, o qual tem a

linguagem, vida e costumes e gentilidades dos tupinambás, ainda

que são seus contrários, em cujo título se declarará mui particularmente tudo o que se pode alcançar. E ainda que são contrários

os tupiniquins dos tupinambás, não há entre eles na língua e

costumes mais diferença da que têm os moradores de Lisboa dos

da Beira; mas esse gentio é mais doméstico e verdadeiro que todo

outro da costa deste Estado. É gente de grande trabalho e serviço,

e sempre nas guerras ajudaram aos portugueses, contra os aimorés, tapuias e tamoios, como ainda hoje fazem esses poucos que se

deixaram ficar junto ao mar e das nossas povoações, com quem

vizinham muito bem, os quais são grandes pescadores de linha,

caçadores e marinheiros, são valentes homens, caçam, pescam,

cantam, bailam como os tupinambás e nas coisas de guerra são

mui industriosos, e homens para muito, de quem se faz muita

conta a seu modo entre o gentio.

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