Primeira parte - Capítulo XXXIX
Em que se declara quem são os tupiniquins e sua vida e costumes.
Já fica dito como o gentio tupiniquim senhoreou e possuiu a
terra da costa do Brasil, ao longo do mar, do Rio de Camamu até
o Rio de Cricaré, o qual tem agora despovoado toda esta comarca,
fugindo dos tupinambás, seus contrários, que os apertaram por
uma banda, e aos aimorés, que os ofendiam por outra; pelo que se
afastaram do mar, e, fugindo ao mau tratamento que lhes faziam
alguns homens brancos, por serem pouco tementes a Deus. Pelo
que não vivem agora junto do mar mais que os cristãos de que já
fizemos menção. Com este gentio tiveram os primeiros povoadores das capitanias dos Ilhéus e Porto Seguro e os do Espírito Santo,
nos primeiros anos, grandes guerras e trabalhos, de quem receberam muitos danos; mas, pelo tempo adiante, vieram a fazer pazes,
que se cumpriram e guardaram bem de parte a parte, e de então
para agora foram os tupiniquins muito fiéis e verdadeiros aos
portugueses. Este gentio, e os tupinaés, descendem todos de um
tronco, e não se têm por contrários verdadeiros, ainda que muitas
vezes tivessem diferenças e guerras, os quais tupinaés lhe ficavam
nas cabeceiras, pela banda do sertão, com quem a maior parte dos
tupiniquins agora estão misturados. Este gentio é da mesma cor
baça e estatura que o outro gentio de que falamos, o qual tem a
linguagem, vida e costumes e gentilidades dos tupinambás, ainda
que são seus contrários, em cujo título se declarará mui particularmente tudo o que se pode alcançar. E ainda que são contrários
os tupiniquins dos tupinambás, não há entre eles na língua e
costumes mais diferença da que têm os moradores de Lisboa dos
da Beira; mas esse gentio é mais doméstico e verdadeiro que todo
outro da costa deste Estado. É gente de grande trabalho e serviço,
e sempre nas guerras ajudaram aos portugueses, contra os aimorés, tapuias e tamoios, como ainda hoje fazem esses poucos que se
deixaram ficar junto ao mar e das nossas povoações, com quem
vizinham muito bem, os quais são grandes pescadores de linha,
caçadores e marinheiros, são valentes homens, caçam, pescam,
cantam, bailam como os tupinambás e nas coisas de guerra são
mui industriosos, e homens para muito, de quem se faz muita
conta a seu modo entre o gentio.