Segunda parte - Capítulo XXXVII
Em que se declara que coisa é a mandioca.
Até agora se disse da fertilidade da terra da Bahia tocante às
árvores de fruto da Espanha, e às outras sementes que se nela dão.
E já se sabe como nesta província frutificam as alheias, saibamos
dos seus mantimentos naturais; e peguemos primeiro da mandioca, que é o principal mantimento e de mais substância, que em
Portugal chamam farinha de pau.
Mandioca é uma raiz da feição dos inhames e batatas, e tem a
grandura conforme a bondade da terra, e a criação que tem. Há
casta de mandioca cuja rama é delgada e da cor como ramos de
sabugueiro, e fofos por dentro; a folha é de feição e da brandura da
da parra, mas tem a cor do verde mais escura; os pés dessas folhas
são compridos e vermelhos, como os das mesmas das parreiras.
Planta-se a mandioca em covas redondas como melões, muito
bem cavadas, e em cada cova se metem três a quatro pauzinhos
da rama, de palmo cada um, e não entram pela terra mais que dois
dedos, os quais paus quebram à mão, ou os cortam com faca ao
tempo que os plantam, porque em fresco deitam leite pelo corte,
de onde nascem e se geram as raízes; e fazem-se essas plantadas
mui ordenadas seis palmos de uma cova à outra. Arrebenta a rama
desta mandioca dos nós destes pauzinhos aos três dias até os oito,
segundo a fresquidão do tempo, os quais ramos são muito tenros
e muito cheios de nós, que se fazem ao pé de cada folha, por onde
quebram muito; quando a planta rebenta é por esses nós, e quando os olhos nascem deles são como de parreira. A grandura da raiz
e da rama da mandioca é conforme a terra em que a plantam, e a
criação que tem; mas, ordinariamente, é a rama mais alta que um
homem, e a partes cobre um homem a cavalo; mas há uma casta,
que de natureza dá pequenos ramos, a qual plantam em lugares
sujeitos aos tempos tormentosos, por que a não arranque e quebre
o vento. Há casta de mandioca que, se a deixam criar, dá raízes de
cinco e seis palmos de comprido, e tão grossas como a perna de
um homem; querem-se as roças da mandioca limpas de erva, até
que tenha disposição para criar boa raiz.
Há uma casta de mandioca, que se diz manipocamirim, e outra
que chamam manaibuçu, que se quer comesta de ano e meio por
diante; e há outras castas, que chamam taiaçu e manaibaru, que
se querem comestas de um ano por diante, e duram estas raízes
debaixo da terra sem apodrecerem três, quatro anos.
Há outras castas, que se dizem manaitinga e parati, que se
começam a comer de oito meses por diante, e se passa de ano
apodrecem muito; esta mandioca manaitinga e parati se quer
plantada em terras fracas e de areia.
Planta-se a mandioca em todo o ano, não sendo no inverno,
e quer mais tempo seco que invernoso, se o inverno é grande
apodrece a raiz da mandioca nos lugares baixos. Lança a rama
da mandioca na entrada do verão umas flores brancas como de
jasmins, que não têm nenhum cheiro, e por onde quer que quebram a folha lança leite, a qual folha o gentio come cozida em
tempo de necessidade, com pimenta da terra. A formiga faz muito
dano à mandioca, e se lhe come a folha, mais de uma vez, fá-la
secar; a qual, como é comesta dela, nunca dá boa raiz, e para se
defenderem as roças desta praga da formiga, buscam-lhe os formigueiros, de onde as arrancam com enxadas e as queimam; outros
costumam, às tardes, antes que se recolham, pisarem a terra dos
olhos dos formigueiros com picões muito bem, para que de noite,
em que elas dão os seus assaltos, se detenham em tornar a furar a
terra para saírem fora, e lançam-lhe de redor folhas de árvores que
elas comem, e das da mandioca velha, com o que, quando saem
acima se embaraçam até pela manhã, que se recolhem aos formigueiros; e se as formigas vêm de fora das roças a comer a elas,
lançam-lhes dessa folha no caminho, antes que entrem na roça, o
qual caminho fazem muito limpo, por onde vão e vêm à vontade,
e cortam-lhe a erva com o dente, e desviam-na do caminho. Nesse
trabalho andam os lavradores até que a mandioca é de seis meses,
que cobre bem a terra com a rama, que então não lhe faz a formiga
nojo, porque acha sempre pelo chão as folhas que caem de cima,
com o que se contentam, e nas terras novas não há formiga que
faça nojo a nada.