Segunda parte - Capítulo XXXVII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 112 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXXVII

Em que se declara que coisa é a mandioca.

Até agora se disse da fertilidade da terra da Bahia tocante às

árvores de fruto da Espanha, e às outras sementes que se nela dão.

E já se sabe como nesta província frutificam as alheias, saibamos

dos seus mantimentos naturais; e peguemos primeiro da mandioca, que é o principal mantimento e de mais substância, que em

Portugal chamam farinha de pau.

Mandioca é uma raiz da feição dos inhames e batatas, e tem a

grandura conforme a bondade da terra, e a criação que tem. Há

casta de mandioca cuja rama é delgada e da cor como ramos de

sabugueiro, e fofos por dentro; a folha é de feição e da brandura da

da parra, mas tem a cor do verde mais escura; os pés dessas folhas

são compridos e vermelhos, como os das mesmas das parreiras.

Planta-se a mandioca em covas redondas como melões, muito

bem cavadas, e em cada cova se metem três a quatro pauzinhos

da rama, de palmo cada um, e não entram pela terra mais que dois

dedos, os quais paus quebram à mão, ou os cortam com faca ao

tempo que os plantam, porque em fresco deitam leite pelo corte,

de onde nascem e se geram as raízes; e fazem-se essas plantadas

mui ordenadas seis palmos de uma cova à outra. Arrebenta a rama

desta mandioca dos nós destes pauzinhos aos três dias até os oito,

segundo a fresquidão do tempo, os quais ramos são muito tenros

e muito cheios de nós, que se fazem ao pé de cada folha, por onde

quebram muito; quando a planta rebenta é por esses nós, e quando os olhos nascem deles são como de parreira. A grandura da raiz

e da rama da mandioca é conforme a terra em que a plantam, e a

criação que tem; mas, ordinariamente, é a rama mais alta que um

homem, e a partes cobre um homem a cavalo; mas há uma casta,

que de natureza dá pequenos ramos, a qual plantam em lugares

sujeitos aos tempos tormentosos, por que a não arranque e quebre

o vento. Há casta de mandioca que, se a deixam criar, dá raízes de

cinco e seis palmos de comprido, e tão grossas como a perna de

um homem; querem-se as roças da mandioca limpas de erva, até

que tenha disposição para criar boa raiz.

Há uma casta de mandioca, que se diz manipocamirim, e outra

que chamam manaibuçu, que se quer comesta de ano e meio por

diante; e há outras castas, que chamam taiaçu e manaibaru, que

se querem comestas de um ano por diante, e duram estas raízes

debaixo da terra sem apodrecerem três, quatro anos.

Há outras castas, que se dizem manaitinga e parati, que se

começam a comer de oito meses por diante, e se passa de ano

apodrecem muito; esta mandioca manaitinga e parati se quer

plantada em terras fracas e de areia.

Planta-se a mandioca em todo o ano, não sendo no inverno,

e quer mais tempo seco que invernoso, se o inverno é grande

apodrece a raiz da mandioca nos lugares baixos. Lança a rama

da mandioca na entrada do verão umas flores brancas como de

jasmins, que não têm nenhum cheiro, e por onde quer que quebram a folha lança leite, a qual folha o gentio come cozida em

tempo de necessidade, com pimenta da terra. A formiga faz muito

dano à mandioca, e se lhe come a folha, mais de uma vez, fá-la

secar; a qual, como é comesta dela, nunca dá boa raiz, e para se

defenderem as roças desta praga da formiga, buscam-lhe os formigueiros, de onde as arrancam com enxadas e as queimam; outros

costumam, às tardes, antes que se recolham, pisarem a terra dos

olhos dos formigueiros com picões muito bem, para que de noite,

em que elas dão os seus assaltos, se detenham em tornar a furar a

terra para saírem fora, e lançam-lhe de redor folhas de árvores que

elas comem, e das da mandioca velha, com o que, quando saem

acima se embaraçam até pela manhã, que se recolhem aos formigueiros; e se as formigas vêm de fora das roças a comer a elas,

lançam-lhes dessa folha no caminho, antes que entrem na roça, o

qual caminho fazem muito limpo, por onde vão e vêm à vontade,

e cortam-lhe a erva com o dente, e desviam-na do caminho. Nesse

trabalho andam os lavradores até que a mandioca é de seis meses,

que cobre bem a terra com a rama, que então não lhe faz a formiga

nojo, porque acha sempre pelo chão as folhas que caem de cima,

com o que se contentam, e nas terras novas não há formiga que

faça nojo a nada.

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