Segunda parte - Capítulo LXIV
Daqui por diante se vai dizendo das árvores reais e o para que servem começando neste capítulo 64, que trata do vinhático e cedro.
Como temos dito das árvores de fruto, e das que têm virtude
para curar enfermidades, convém que se declarem as árvores reais
que se dão na Bahia, de que se fazem os engenhos de açúcar e outras obras, de cuja grandeza há tanta fama.
E parece razão que se dê o primeiro lugar ao vinhático, a que o
gentio chama sabijejuba, cuja madeira é amarela e doce de lavrar,
a qual é incorruptível assim sobre a terra como debaixo dela, e
serve para as rodas dos engenhos, para outras obras deles, e para
casas e outras obras-primas. Há também façanhosos paus desta
casta, que se acham muitos de cem palmos de roda, e outros daqui
para baixo, mui grandes; mas os muitos grandes pela maior parte são ocos por dentro, dos quais se fazem canoas tão compridas
como galeotas; e acham-se muitos paus maciços, de que se tira
tabuado de três, quatro e cinco palmos de largo. Esta madeira não
se dá senão em terra boa e afastada do mar.
Os cedros da Bahia não têm diferença dos das Ilhas senão na
folha, que a cor da madeira e o cheiro e brandura ao lavrar é todo
um; a esta árvore chama o gentio acajacatinga, cuja madeira se
não corrompe nunca; da qual se acham mui grandes paus que
pela maior parte são ocos, mas acham-se alguns maciços, de que
se tira tabuado de três e quatro palmos de largo.
Pelo Rio dos Ilhéus trouxe a cheia um pau de cedro ao mar
tamanho que se tirou dele a madeira e tabuado com que se madeirou e forrou a igreja da Misericórdia, e sobejou madeira; a qual
é branda de lavrar e proveitosa para obras-primas e outras obras
dos engenhos, de que se faz muito tabuado para o forro das casas
e para barcos; e faz uma vantagem o cedro da Bahia ao das Ilhas,
que logo perde a fortidão do cheiro, e o fato que se mete nas caixas
de cedro não toma nenhum cheiro delas, e as obras do cedro das
Ilhas nunca jamais perderam o cheiro, e danam com ele o fato que
se nelas agasalha.