Segunda parte - Capítulo CXLVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 221 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXLVI

Em que se declara a natureza dos caranguejos-do-mato. Andei buscando até agora onde agasalhar os caranguejos-do - -mato, sem lhes achar lugar cômodo, porque para os arrumar com

os caranguejos do mar parecia despropósito, pois se eles criam na

terra, sem verem nem tocarem água do mar; e para os contar com

os animais parece que também não lhes cabia esse lugar, pois se

parecem com o marisco do mar; e por não ficarem sem gasalhado nestas lembranças, os aposentei na vizinhança do marisco de

terra, ainda que se não criem na água estes caranguejos, mas em

lugares úmidos por todas as ribeiras.

A estes caranguejos da terra chamam os índios guoanhamu; os

quais se criam em várzeas úmidas, não muito longe do mar, mas

na vizinhança da água doce, os quais são muito grandes e azuis,

com o casco e pernas mui luzentes; os machos são muito maiores

que as fêmeas, e tamanhos que têm os braços grandes, onde têm

as bocas com tamanhos bicos, e tão compridos e voltados que faz

com ele tamanha aparência como faz o dedo demonstrativo da

mão de um homem com o polegar, o que é tão duro como ferro, e onde pegam com esta boca não largam até os não matarem.

Criam-se estes caranguejos em covas debaixo da terra, tão fundas

que com trabalho se lhe pode chegar com o braço e ombro de um

índio metidos nela, onde os mordem mui valentemente. No mês

de fevereiro, estão as fêmeas, até meados de março, todas cheias

de coral mui vermelho, e têm tanto no casco como uma lagosta, o

qual e tudo o mais é muito gostoso; tiram-lhe o fel ou bucho que

têm, cheio de tinta preta muito amargosa; porque se se derrama

faz amargar tudo e por onde ele chegou.

No mês de agosto, que é no cabo do inverno, se saem os machos e fêmeas ao sol, com o que anda a terra coberta deles; no qual

tempo se saem ao sol passeando de uma parte para outra, e são então bons de tomar; e nesta conjunção andam os machos tão gordos que têm os cascos cheios de uma amarelidão como gemas de

ovos, os quais são mui gostosos à maravilha, mas são carregados; e

para os índios os tirarem das covas sem trabalho, tapam-nas com

um molho de ervas, com o que eles abafam nas covas, e, se vêm

para tomar ar, e por não acharem caminho desimpedido, morrem

à boca da cova abafados. Algumas vezes morreram pessoas de

comerem este guaiamu, e dizem os índios que no tempo em que

fazem mal comem uma fruta, a que chamam araticumpaná, de

que já fizemos menção, a qual é peçonhenta.

Daqui por diante se trata da vida e costumes do gentio da terra

da Bahia. Já era tempo de dizermos quem foram os povoadores e

possuidores desta terra da Bahia, de que se têm dito tantas maravilhas, e quem são estes tupinambás tão nomeados, cuja vida e

costumes temos prometido por tantas vezes neste tratado, ao que

começamos satisfazer daqui por diante.

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