Segunda parte - Capítulo CXLVI
Em que se declara a natureza dos caranguejos-do-mato. Andei buscando até agora onde agasalhar os caranguejos-do - -mato, sem lhes achar lugar cômodo, porque para os arrumar com
os caranguejos do mar parecia despropósito, pois se eles criam na
terra, sem verem nem tocarem água do mar; e para os contar com
os animais parece que também não lhes cabia esse lugar, pois se
parecem com o marisco do mar; e por não ficarem sem gasalhado nestas lembranças, os aposentei na vizinhança do marisco de
terra, ainda que se não criem na água estes caranguejos, mas em
lugares úmidos por todas as ribeiras.
A estes caranguejos da terra chamam os índios guoanhamu; os
quais se criam em várzeas úmidas, não muito longe do mar, mas
na vizinhança da água doce, os quais são muito grandes e azuis,
com o casco e pernas mui luzentes; os machos são muito maiores
que as fêmeas, e tamanhos que têm os braços grandes, onde têm
as bocas com tamanhos bicos, e tão compridos e voltados que faz
com ele tamanha aparência como faz o dedo demonstrativo da
mão de um homem com o polegar, o que é tão duro como ferro, e onde pegam com esta boca não largam até os não matarem.
Criam-se estes caranguejos em covas debaixo da terra, tão fundas
que com trabalho se lhe pode chegar com o braço e ombro de um
índio metidos nela, onde os mordem mui valentemente. No mês
de fevereiro, estão as fêmeas, até meados de março, todas cheias
de coral mui vermelho, e têm tanto no casco como uma lagosta, o
qual e tudo o mais é muito gostoso; tiram-lhe o fel ou bucho que
têm, cheio de tinta preta muito amargosa; porque se se derrama
faz amargar tudo e por onde ele chegou.
No mês de agosto, que é no cabo do inverno, se saem os machos e fêmeas ao sol, com o que anda a terra coberta deles; no qual
tempo se saem ao sol passeando de uma parte para outra, e são então bons de tomar; e nesta conjunção andam os machos tão gordos que têm os cascos cheios de uma amarelidão como gemas de
ovos, os quais são mui gostosos à maravilha, mas são carregados; e
para os índios os tirarem das covas sem trabalho, tapam-nas com
um molho de ervas, com o que eles abafam nas covas, e, se vêm
para tomar ar, e por não acharem caminho desimpedido, morrem
à boca da cova abafados. Algumas vezes morreram pessoas de
comerem este guaiamu, e dizem os índios que no tempo em que
fazem mal comem uma fruta, a que chamam araticumpaná, de
que já fizemos menção, a qual é peçonhenta.
Daqui por diante se trata da vida e costumes do gentio da terra
da Bahia. Já era tempo de dizermos quem foram os povoadores e
possuidores desta terra da Bahia, de que se têm dito tantas maravilhas, e quem são estes tupinambás tão nomeados, cuja vida e
costumes temos prometido por tantas vezes neste tratado, ao que
começamos satisfazer daqui por diante.