Segunda parte - Capítulo XXXI
Em que se explica a terra do Rio Una até Tinharé, e da Ilha de
Taparica com outras ilhas.
Da boca do Rio Una a uma légua se mete no mar outro rio, que
se diz Tairiri, pelo qual entra a maré duas ou três léguas, onde
Fernão Rodrigues de Sousa fez uma populosa fazenda com um
engenho mui bem acabado e aperfeiçoado, com as oficinas acostumadas e uma igreja de Nossa Senhora do Rosário muito bem
concertada, onde tem muitos homens de soldo para se defenderem da praga dos aimorés, que lhe fizeram já muito dano. E tornado à boca deste rio, que está muito vizinho da Ilha de Tinharé, de
onde vai correndo até o morro, fazendo uma enseada de obra de
três léguas até a ponta do morro, onde se acaba o que se entende
a Bahia de Todos os Santos. Esta ilha faz abrigada a esta terra até a
ponta do Curral, por ser a terra alta, a qual é fraca para canaviais,
onde vivem alguns moradores, que nela estão assentados da mão
de Domingos Saraiva, que é o senhor desta ilha, o qual vivia nela
e tem aí sua fazenda com grandes criações e uma ermida onde
lhe dizem missa. Da boca deste Rio de Tairiri a esta ilha pode ser
um tiro de falcão. No mar que há entre esta ilha e a terra firme,
há grandes pescarias e muito marisco, onde por muitas vezes no
inverno lança o mar fora nesta ilha e nas praias de defronte até o
Juquirijape âmbar gris muito bom.
Tornado à Ilha de Taparica, de que atrás se faz menção pela banda de Tinharé, não tem porto onde se possa desembarcar, por ser
cercada de baixos de pedra, onde o mar quebra ordinariamente,
a qual, pela banda de dentro da baía, tem muitos portos, onde os
barcos podem desembarcar com todo tempo. Tem esta ilha, pela
banda de dentro, grandes pontas e enseadas, onde com tormenta
se recolhem as embarcações que vêm das outras partes da baía
para a cidade.
Na ponta dessa Ilha de Taparica defronte da barra de Jaguaripe
está uma ilheta junto a ela, que se diz de Lopo Rebelo, que está
cheia de arvoredo, de onde se tira muita madeira. E daqui para
dentro é povoada Taparica de alguns moradores, que vivem junto
ao mar, que lavram canas e mantimentos, e criam vacas. E daqui
até Tamaratiba serão duas léguas de costa desta ilha, entre a qual
e a de Tamaratiba haverá espaço de um tiro de falcão. Esta Ilha
de Tamaratiba tem uma légua de comprido, e meia de largo, cuja
terra não serve para mais que para mantimentos, onde vivem
seis ou sete moradores, a qual é do Conde de Castanheira. Junto
de Tamaratiba, da banda da terra firme, está uma ilheta de São
Gonçalo, cheia de arvoredo, muito rasa, cuja terra é fraca e de areia,
onde o mais do tempo estão diferentes pescadores de rede, por haver ali muitos lanços; e diante dela estão três ilhéus rasos, fazendo
uma ponta ao mar contra a outra que vem da banda do Paraguaçu,
e pode haver de uns aos outros uma légua; do mar contra a ponta
de Taparica está outro ilhéu raso com arvoredo que não serve senão a pescadores de redes. No Cabo da Ilha Tamaratiba, entre ela e
a de Taparica, estão três ilhéus de areia pequenos, e junto deles está
uma ilheta, que chamam dos Porcos, que será de seiscentas braças
em quadro. Mais avante, junto da terra de Taparica está outra ilheta, que se diz de João Fidalgo, onde vive um morador. Avante desta
ilheta, numa enseada grande que Taparica faz, está um engenho
de açúcar que lavra com bois, o qual é de Gaspar Pacheco, por cujo
porto se servem os moradores que vivem pelo sertão da ilha, onde
tem uma igreja de Santa Cruz; e deste engenho a duas léguas está
a ponta de Taparica, que é mais saída ao mar, que se chama ponta
da Cruz, até onde está povoada a ilha de moradores, que lavram
mantimentos e algumas canas. Desta ponta uma légua ao norte
está uma ilha que se diz a do Medo, cuja terra é rasa e despovoada
por ser de areia e não ter água.
Da ponta de Taparica se torna a recolher a terra fazendo rosto
para a cidade, a qual está toda povoada de moradores que lavram
muitos mantimentos e canaviais. E na fazenda de Fernão de Sousa
está uma igreja mui bem concertada, da advocação de Nossa
Senhora, onde os vizinhos desta banda têm missa aos domingos
e dias santos.
E por aqui temos concluído com a redondeza da Bahia e suas
ilhas, que são trinta e nove, a saber, vinte e duas ilhas e dezessete
ilhéus, fora as ilhas que há dentro nos rios, que são dezesseis entre
grandes e pequenas, que junto todas fazem a soma de cinquenta
e cinco; e tem a baía, da ponta do Padrão, andando-a por dentro
sem entrar nos rios, até chegar à ponta do Tinharé, cinquenta e
três léguas.