Segunda parte - Capítulo XXXI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 106 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo XXXI

Em que se explica a terra do Rio Una até Tinharé, e da Ilha de

Taparica com outras ilhas.

Da boca do Rio Una a uma légua se mete no mar outro rio, que

se diz Tairiri, pelo qual entra a maré duas ou três léguas, onde

Fernão Rodrigues de Sousa fez uma populosa fazenda com um

engenho mui bem acabado e aperfeiçoado, com as oficinas acostumadas e uma igreja de Nossa Senhora do Rosário muito bem

concertada, onde tem muitos homens de soldo para se defenderem da praga dos aimorés, que lhe fizeram já muito dano. E tornado à boca deste rio, que está muito vizinho da Ilha de Tinharé, de

onde vai correndo até o morro, fazendo uma enseada de obra de

três léguas até a ponta do morro, onde se acaba o que se entende

a Bahia de Todos os Santos. Esta ilha faz abrigada a esta terra até a

ponta do Curral, por ser a terra alta, a qual é fraca para canaviais,

onde vivem alguns moradores, que nela estão assentados da mão

de Domingos Saraiva, que é o senhor desta ilha, o qual vivia nela

e tem aí sua fazenda com grandes criações e uma ermida onde

lhe dizem missa. Da boca deste Rio de Tairiri a esta ilha pode ser

um tiro de falcão. No mar que há entre esta ilha e a terra firme,

há grandes pescarias e muito marisco, onde por muitas vezes no

inverno lança o mar fora nesta ilha e nas praias de defronte até o

Juquirijape âmbar gris muito bom.

Tornado à Ilha de Taparica, de que atrás se faz menção pela banda de Tinharé, não tem porto onde se possa desembarcar, por ser

cercada de baixos de pedra, onde o mar quebra ordinariamente,

a qual, pela banda de dentro da baía, tem muitos portos, onde os

barcos podem desembarcar com todo tempo. Tem esta ilha, pela

banda de dentro, grandes pontas e enseadas, onde com tormenta

se recolhem as embarcações que vêm das outras partes da baía

para a cidade.

Na ponta dessa Ilha de Taparica defronte da barra de Jaguaripe

está uma ilheta junto a ela, que se diz de Lopo Rebelo, que está

cheia de arvoredo, de onde se tira muita madeira. E daqui para

dentro é povoada Taparica de alguns moradores, que vivem junto

ao mar, que lavram canas e mantimentos, e criam vacas. E daqui

até Tamaratiba serão duas léguas de costa desta ilha, entre a qual

e a de Tamaratiba haverá espaço de um tiro de falcão. Esta Ilha

de Tamaratiba tem uma légua de comprido, e meia de largo, cuja

terra não serve para mais que para mantimentos, onde vivem

seis ou sete moradores, a qual é do Conde de Castanheira. Junto

de Tamaratiba, da banda da terra firme, está uma ilheta de São

Gonçalo, cheia de arvoredo, muito rasa, cuja terra é fraca e de areia,

onde o mais do tempo estão diferentes pescadores de rede, por haver ali muitos lanços; e diante dela estão três ilhéus rasos, fazendo

uma ponta ao mar contra a outra que vem da banda do Paraguaçu,

e pode haver de uns aos outros uma légua; do mar contra a ponta

de Taparica está outro ilhéu raso com arvoredo que não serve senão a pescadores de redes. No Cabo da Ilha Tamaratiba, entre ela e

a de Taparica, estão três ilhéus de areia pequenos, e junto deles está

uma ilheta, que chamam dos Porcos, que será de seiscentas braças

em quadro. Mais avante, junto da terra de Taparica está outra ilheta, que se diz de João Fidalgo, onde vive um morador. Avante desta

ilheta, numa enseada grande que Taparica faz, está um engenho

de açúcar que lavra com bois, o qual é de Gaspar Pacheco, por cujo

porto se servem os moradores que vivem pelo sertão da ilha, onde

tem uma igreja de Santa Cruz; e deste engenho a duas léguas está

a ponta de Taparica, que é mais saída ao mar, que se chama ponta

da Cruz, até onde está povoada a ilha de moradores, que lavram

mantimentos e algumas canas. Desta ponta uma légua ao norte

está uma ilha que se diz a do Medo, cuja terra é rasa e despovoada

por ser de areia e não ter água.

Da ponta de Taparica se torna a recolher a terra fazendo rosto

para a cidade, a qual está toda povoada de moradores que lavram

muitos mantimentos e canaviais. E na fazenda de Fernão de Sousa

está uma igreja mui bem concertada, da advocação de Nossa

Senhora, onde os vizinhos desta banda têm missa aos domingos

e dias santos.

E por aqui temos concluído com a redondeza da Bahia e suas

ilhas, que são trinta e nove, a saber, vinte e duas ilhas e dezessete

ilhéus, fora as ilhas que há dentro nos rios, que são dezesseis entre

grandes e pequenas, que junto todas fazem a soma de cinquenta

e cinco; e tem a baía, da ponta do Padrão, andando-a por dentro

sem entrar nos rios, até chegar à ponta do Tinharé, cinquenta e

três léguas.

1/1
Menu

Fazer anotação