Segunda parte - Capítulo CLXIV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 239 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXIV

Que trata do uso que os tupinambás têm em seus conselhos e das cerimônias que neles usam.

Quando o principal da aldeia quer praticar algum negócio de

importância, manda recado aos índios de mais conta, os quais

se ajuntam no meio do terreiro da aldeia, onde em estacas que

têm para isso metidas no chão, armam suas redes de redor da do

principal, onde também se chegam os que querem ouvir estas

práticas, porque entre eles não há segredo; os quais se assentam

todos em cócoras, e quando tudo está quieto, propõe o principal

sua prática, a que todos estão muito atentos; e quando acaba sua

oração, respondem os mais antigos cada um por si; e quando um

fala, calam-se todos os outros, até que vêm a concluir no que hão

de fazer; sobre o que têm suas alterações, muitas vezes. E alguns

dos principais que estão neste conselho, levam algumas cangoeiras de fumo, de que bebem; o que começa de fazer o principal primeiro; e para isso leva um moço, que lhe dá a cangoeira acesa, e

como lhe toma a salva, manda a cangoeira a outro que não a tem,

e assim se revezam todos os que não a têm, com ela; o que estes

índios fazem por autoridade, como os da Índia comem o bétele,

em semelhantes ajuntamentos; o que também fazem muitos homens brancos, e todos os mamelucos; porque tomam este fumo

por mantença, e não podem andar sem ele na boca, aos quais dana

o bafo e os dentes, e lhes faz mui ruins cores. Esta cangoeira de

fumo é um canudo que se faz de uma folha de palma seca, e tem

dentro três e quatro folhas secas de erva-santa, a que os índios

chamam petume, a qual cangoeira atam pela banda mais apertada com o fio, onde estão as folhas de petume, e acendem esta

cangoeira pela parte das folhas de petume e, como tem brasa, a

metem na boca, e sorvem para dentro o fumo, que logo lhe entra

pelas cachagens, mui grosso, e pelas goelas, e sai-lhe pelas ventas

fora com muita fúria: como não podem sofrer este fumo, tiram a

cangoeira fora da boca.

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