Segunda parte - Capítulo CLXIV
Que trata do uso que os tupinambás têm em seus conselhos e das cerimônias que neles usam.
Quando o principal da aldeia quer praticar algum negócio de
importância, manda recado aos índios de mais conta, os quais
se ajuntam no meio do terreiro da aldeia, onde em estacas que
têm para isso metidas no chão, armam suas redes de redor da do
principal, onde também se chegam os que querem ouvir estas
práticas, porque entre eles não há segredo; os quais se assentam
todos em cócoras, e quando tudo está quieto, propõe o principal
sua prática, a que todos estão muito atentos; e quando acaba sua
oração, respondem os mais antigos cada um por si; e quando um
fala, calam-se todos os outros, até que vêm a concluir no que hão
de fazer; sobre o que têm suas alterações, muitas vezes. E alguns
dos principais que estão neste conselho, levam algumas cangoeiras de fumo, de que bebem; o que começa de fazer o principal primeiro; e para isso leva um moço, que lhe dá a cangoeira acesa, e
como lhe toma a salva, manda a cangoeira a outro que não a tem,
e assim se revezam todos os que não a têm, com ela; o que estes
índios fazem por autoridade, como os da Índia comem o bétele,
em semelhantes ajuntamentos; o que também fazem muitos homens brancos, e todos os mamelucos; porque tomam este fumo
por mantença, e não podem andar sem ele na boca, aos quais dana
o bafo e os dentes, e lhes faz mui ruins cores. Esta cangoeira de
fumo é um canudo que se faz de uma folha de palma seca, e tem
dentro três e quatro folhas secas de erva-santa, a que os índios
chamam petume, a qual cangoeira atam pela banda mais apertada com o fio, onde estão as folhas de petume, e acendem esta
cangoeira pela parte das folhas de petume e, como tem brasa, a
metem na boca, e sorvem para dentro o fumo, que logo lhe entra
pelas cachagens, mui grosso, e pelas goelas, e sai-lhe pelas ventas
fora com muita fúria: como não podem sofrer este fumo, tiram a
cangoeira fora da boca.