Primeira parte - Capítulo LVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 59 de 271
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Primeira parte - Capítulo LVIII

Em que se declara quem é o gentio tamoio de que tanto falamos.

Ainda que pareça ser já fora do seu lugar tratar aqui do gentio

tamoio, não lhe cabia outro, por a costa da terra que eles senhorearam passar além do Rio de Janeiro até Angra dos Reis, pelo que

se não podia dizer deles em outra parte mais acomodada. Estes

tamoios, ao tempo que os portugueses descobriram esta província do Brasil, senhoreavam a costa dele desde o rio do Cabo de São

Tomé até a Angra dos Reis; do qual limite foram lançados para o

sertão, onde agora vivem. Este gentio é grande de corpo e muito

robusto, são valentes homens e mui belicosos, e contrários de

todo o gentio senão dos tupinambás, de quem se fazem parentes,

cuja fala se parece muito uma com a outra, e têm as mesmas gentilidades, vida e costumes, e são amigos uns dos outros. São estes

tamoios mui inimigos dos goitacases, de quem já falamos, com

quem partem, segundo já fica dito, e cada dia se matam e comem

uns aos outros. Por esta outra parte de São Vicente partem com

os guaianases, com quem também têm contínua guerra, sem

se perdoarem. Pelejam estes índios com arcos e flechas, no que

são muito destros, e grandes caçadores e pescadores de linha, e

grandes mergulhadores, e à flecha matam também muito peixe,

de que se aproveitavam quando não tinham anzóis. As suas casas

são mais fortes que as dos tupinambás e do outro gentio, e têm

as suas aldeias mui fortificadas com grandes cercas de madeira.

São havidos estes tamoios por grandes músicos e bailadores entre

todo o gentio, os quais são grandes compositores de cantigas de

improviso, pelo que são mui estimados do gentio, por onde quer

que vão. Trazem os beiços furados e neles umas pontas de osso

compridas com uma cabeça como prego, em que metem esta ponta, e para que não caia a tal cabeça lhe fica de dentro do beiço por

onde a metem. Costumam mais em suas festas enfeitarem-se com

capas e carapuças de penas de cores de pássaros. Com este gentio

tiveram grande entrada os franceses, de quem foram bem recebidos no Cabo Frio e no Rio de Janeiro, onde os deixaram fortificar e

viver até que o Governador Mem de Sá os foi lançar fora; e depois

Antônio Salema, no Cabo Frio. Nestes dois rios costumavam os

franceses resgatar cada ano mil quintais de pau-brasil, aonde carregavam muitas naus, que traziam para França.

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