Primeira parte - Capítulo LVIII
Em que se declara quem é o gentio tamoio de que tanto falamos.
Ainda que pareça ser já fora do seu lugar tratar aqui do gentio
tamoio, não lhe cabia outro, por a costa da terra que eles senhorearam passar além do Rio de Janeiro até Angra dos Reis, pelo que
se não podia dizer deles em outra parte mais acomodada. Estes
tamoios, ao tempo que os portugueses descobriram esta província do Brasil, senhoreavam a costa dele desde o rio do Cabo de São
Tomé até a Angra dos Reis; do qual limite foram lançados para o
sertão, onde agora vivem. Este gentio é grande de corpo e muito
robusto, são valentes homens e mui belicosos, e contrários de
todo o gentio senão dos tupinambás, de quem se fazem parentes,
cuja fala se parece muito uma com a outra, e têm as mesmas gentilidades, vida e costumes, e são amigos uns dos outros. São estes
tamoios mui inimigos dos goitacases, de quem já falamos, com
quem partem, segundo já fica dito, e cada dia se matam e comem
uns aos outros. Por esta outra parte de São Vicente partem com
os guaianases, com quem também têm contínua guerra, sem
se perdoarem. Pelejam estes índios com arcos e flechas, no que
são muito destros, e grandes caçadores e pescadores de linha, e
grandes mergulhadores, e à flecha matam também muito peixe,
de que se aproveitavam quando não tinham anzóis. As suas casas
são mais fortes que as dos tupinambás e do outro gentio, e têm
as suas aldeias mui fortificadas com grandes cercas de madeira.
São havidos estes tamoios por grandes músicos e bailadores entre
todo o gentio, os quais são grandes compositores de cantigas de
improviso, pelo que são mui estimados do gentio, por onde quer
que vão. Trazem os beiços furados e neles umas pontas de osso
compridas com uma cabeça como prego, em que metem esta ponta, e para que não caia a tal cabeça lhe fica de dentro do beiço por
onde a metem. Costumam mais em suas festas enfeitarem-se com
capas e carapuças de penas de cores de pássaros. Com este gentio
tiveram grande entrada os franceses, de quem foram bem recebidos no Cabo Frio e no Rio de Janeiro, onde os deixaram fortificar e
viver até que o Governador Mem de Sá os foi lançar fora; e depois
Antônio Salema, no Cabo Frio. Nestes dois rios costumavam os
franceses resgatar cada ano mil quintais de pau-brasil, aonde carregavam muitas naus, que traziam para França.