Primeira parte - Capítulo VII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 8 de 271
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Primeira parte - Capítulo VII

Em que se declara a costa do Rio Grande até a do Jagoarive.

Como fica dito, o Rio Grande está em dois graus da parte do

sul, o qual vem de muito longe e traz muita água, por se meterem

nele muitos rios; e, segundo a informação do gentio, nasce de uma

lagoa em que se afirma acharem-se muitas pérolas. Perdendo-se,

haverá dezesseis anos, um navio nos baixos do Maranhão, da gente que escapou dele que veio por terra, afirmou um Nicolau de

Rezende, desta companhia, que a terra toda ao longo do mar até

este Rio Grande era escalvada a maior parte dela, e outra cheia

de palmares bravos, e que achara uma lagoa muito grande, que

seria de 20 léguas pouco mais ou menos; e que ao longo dela era a

terra fresca e coberta de arvoredo; e que mais adiante achara outra

muito maior a que não vira o fim, mas que a terra que vizinhava

com ela era fresca e escalvada, e que em uma e em outra havia

grandes pescarias, de que se aproveitavam os tapuias que viviam

por esta costa até este Rio Grande, dos quais disse que recebera

com os mais companheiros bom tratamento. Por este Rio Grande

entram navios da costa e têm nele boa colheita, o qual se navega com barcos algumas léguas. Deste Rio Grande ao dos Negros

são sete léguas, o qual está em altura de dois graus e um quarto;

e do Rio dos Negros às Barreiras Vermelhas são seis léguas, que

estão na mesma altura; e numa parte e noutra têm os navios da

costa surgidouro e abrigada. Das Barreiras Vermelhas à ponta dos

Fumos são quatro léguas, a qual está em dois graus e 1/3. Desta

ponta do Rio da Cruz são sete léguas e está em dois graus e meio

em que também têm colheita os navios da costa. Afirma o gentio

que nasce este rio de uma lagoa, ou junto dela, onde também se

criam pérolas, e chama-se este Rio da Cruz, porque se metem nele

perto do mar dois riachos, em direito um do outro, com que fica a

água em cruz. Deste rio ao do Parcel são oito léguas, o qual está em

dois graus e meio; e faz-se na boca deste rio uma baía toda esparcelada. Do Rio do Parcel à enseada do Macorive são onze léguas,

e está na mesma altura, a qual enseada é muito grande e ao longo

dela navegam navios da costa; mas dentro, em toda, têm bom surgidouro e abrigo; e no Rio das Ostras, que fica entre esta enseada

e a do Parcel o têm também. Da enseada do Macorive ao monte

de Li são quinze léguas e está em altura de dois graus e dois terços, onde há porto e abrigada para os navios da costa; e entre este

porto e a enseada de Macorive têm os mesmos navios surgidouro

e abrigada no porto que se diz dos parcéis. Do monte de Li ao Rio

Jagoarive são dez léguas, o qual está em dois graus e 3/4, e junto

da barra deste rio se mete outro nele, que se chama o Rio Grande,

que é extremo entre os tapuias e os potiguares. Neste rio entram

navios de honesto porte até onde se corre a costa leste-oeste; a

terra daqui até o Maranhão é quase toda escalvada; e quem quiser

navegar por ela e entrar em qualquer porto dos nomeados há de

entrar neste Rio de Jagoarive por entre os baixos e a terra porque

tudo até o Maranhão defronte da costa são baixos, e pode navegar

sempre por entre eles e a terra, por fundo de três braças e duas

e meia, achando tudo limpo, e quanto se chegar mais à terra se

achará mais fundo. Nesta boca do Jagoarive está uma enseada

onde navios de todo o porte podem ancorar e estar seguros.

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