Primeira parte - Capítulo VII
Em que se declara a costa do Rio Grande até a do Jagoarive.
Como fica dito, o Rio Grande está em dois graus da parte do
sul, o qual vem de muito longe e traz muita água, por se meterem
nele muitos rios; e, segundo a informação do gentio, nasce de uma
lagoa em que se afirma acharem-se muitas pérolas. Perdendo-se,
haverá dezesseis anos, um navio nos baixos do Maranhão, da gente que escapou dele que veio por terra, afirmou um Nicolau de
Rezende, desta companhia, que a terra toda ao longo do mar até
este Rio Grande era escalvada a maior parte dela, e outra cheia
de palmares bravos, e que achara uma lagoa muito grande, que
seria de 20 léguas pouco mais ou menos; e que ao longo dela era a
terra fresca e coberta de arvoredo; e que mais adiante achara outra
muito maior a que não vira o fim, mas que a terra que vizinhava
com ela era fresca e escalvada, e que em uma e em outra havia
grandes pescarias, de que se aproveitavam os tapuias que viviam
por esta costa até este Rio Grande, dos quais disse que recebera
com os mais companheiros bom tratamento. Por este Rio Grande
entram navios da costa e têm nele boa colheita, o qual se navega com barcos algumas léguas. Deste Rio Grande ao dos Negros
são sete léguas, o qual está em altura de dois graus e um quarto;
e do Rio dos Negros às Barreiras Vermelhas são seis léguas, que
estão na mesma altura; e numa parte e noutra têm os navios da
costa surgidouro e abrigada. Das Barreiras Vermelhas à ponta dos
Fumos são quatro léguas, a qual está em dois graus e 1/3. Desta
ponta do Rio da Cruz são sete léguas e está em dois graus e meio
em que também têm colheita os navios da costa. Afirma o gentio
que nasce este rio de uma lagoa, ou junto dela, onde também se
criam pérolas, e chama-se este Rio da Cruz, porque se metem nele
perto do mar dois riachos, em direito um do outro, com que fica a
água em cruz. Deste rio ao do Parcel são oito léguas, o qual está em
dois graus e meio; e faz-se na boca deste rio uma baía toda esparcelada. Do Rio do Parcel à enseada do Macorive são onze léguas,
e está na mesma altura, a qual enseada é muito grande e ao longo
dela navegam navios da costa; mas dentro, em toda, têm bom surgidouro e abrigo; e no Rio das Ostras, que fica entre esta enseada
e a do Parcel o têm também. Da enseada do Macorive ao monte
de Li são quinze léguas e está em altura de dois graus e dois terços, onde há porto e abrigada para os navios da costa; e entre este
porto e a enseada de Macorive têm os mesmos navios surgidouro
e abrigada no porto que se diz dos parcéis. Do monte de Li ao Rio
Jagoarive são dez léguas, o qual está em dois graus e 3/4, e junto
da barra deste rio se mete outro nele, que se chama o Rio Grande,
que é extremo entre os tapuias e os potiguares. Neste rio entram
navios de honesto porte até onde se corre a costa leste-oeste; a
terra daqui até o Maranhão é quase toda escalvada; e quem quiser
navegar por ela e entrar em qualquer porto dos nomeados há de
entrar neste Rio de Jagoarive por entre os baixos e a terra porque
tudo até o Maranhão defronte da costa são baixos, e pode navegar
sempre por entre eles e a terra, por fundo de três braças e duas
e meia, achando tudo limpo, e quanto se chegar mais à terra se
achará mais fundo. Nesta boca do Jagoarive está uma enseada
onde navios de todo o porte podem ancorar e estar seguros.