Segunda parte - Capítulo CLXXIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 248 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXXIII

Que trata de como se enfeita e aparata o matador.

Costumam os tupinambás, primeiro que o matador saia do

terreiro, enfeitá-lo muito bem, pintá-lo com lavores de jenipapo

todo o corpo, e põem-lhe na cabeça uma carapuça de penas amarelas e um diadema, manilhas nos braços e pernas, das mesmas

penas, grandes ramais de contas brancas sobraçadas, e seu rabo

de penas de ema nas ancas e uma espada de pau de ambas as mãos

muito pesada, marchetada com continhas brancas de búzios, e

pintada com cascas de ovos de cores, assentado tudo, em lavores

ao seu modo, sobre cera, o que fica mui igualado e bem feito; e

no cabo desta espada têm grandes penachos de penas de pássaros

feitas em molho e dependuradas da empunhadura, a que eles chamam embagadura; e quando o matador está prestes para receber

esta honra, que entre o gentio é a maior que pode ser, ajuntam-se

seus parentes e amigos e vão-no buscar à sua casa; de onde o vêm

acompanhando com grandes cantares e tangeres dos seus búzios,

gaitas e tambores, chamando-lhe bem-aventurado, pois chegou a

ganhar tamanha honra, como é vingar a morte de seus antepassados, e de seus irmãos e parentes; e com este estrondo entra no

terreiro da execução, onde está o que há de padecer, que o está

esperando com grande coragem com uma espada de pau na mão,

diante de quem chega o matador, e lhe diz que se defenda, porque

vem para o matar, a quem responde o preso com mil roncarias;

mas o solto remete a ele com a sua espada de ambas as mãos, da

qual se quer desviar o preso para alguma banda, mas os que têm

cuidado das cordas puxam por elas de feição que o fazem esperar a

pancada; e acontece muitas vezes que o preso, primeiro que morra, chega com a sua espada ao matador que o trata muito mal, sem

embargo de lhe não deixarem as cordas chegar a ele; por mais que

o pobre trabalhe, não lhe aproveita, porque tudo é dilatar a vida

mais dois credos, onde a rende nas mãos do seu inimigo, que lhe

faz a cabeça em pedaços com sua espada; e quando se acaba esta

execução, tiram-no das cordas e levam-no para onde se costuma

repartir esta carne; e acabado o matador de executar sua ira no cativo, toma logo entre si algum nome, o qual declara depois com as

cerimônias que ficam ditas atrás; e vai-se do terreiro recolher para

o seu lanço, onde tira as armas e petrechos com que se enfeitou;

e a mesma honra ficam recebendo aqueles que primeiro pegaram

dos cativos na guerra, do que tomam também novo nome, com

as mesmas festas e cerimônias que já ficam ditas; o que se não faz

com menos alvoroço que aos próprios matadores.

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