Segunda parte - Capítulo CLXXIII
Que trata de como se enfeita e aparata o matador.
Costumam os tupinambás, primeiro que o matador saia do
terreiro, enfeitá-lo muito bem, pintá-lo com lavores de jenipapo
todo o corpo, e põem-lhe na cabeça uma carapuça de penas amarelas e um diadema, manilhas nos braços e pernas, das mesmas
penas, grandes ramais de contas brancas sobraçadas, e seu rabo
de penas de ema nas ancas e uma espada de pau de ambas as mãos
muito pesada, marchetada com continhas brancas de búzios, e
pintada com cascas de ovos de cores, assentado tudo, em lavores
ao seu modo, sobre cera, o que fica mui igualado e bem feito; e
no cabo desta espada têm grandes penachos de penas de pássaros
feitas em molho e dependuradas da empunhadura, a que eles chamam embagadura; e quando o matador está prestes para receber
esta honra, que entre o gentio é a maior que pode ser, ajuntam-se
seus parentes e amigos e vão-no buscar à sua casa; de onde o vêm
acompanhando com grandes cantares e tangeres dos seus búzios,
gaitas e tambores, chamando-lhe bem-aventurado, pois chegou a
ganhar tamanha honra, como é vingar a morte de seus antepassados, e de seus irmãos e parentes; e com este estrondo entra no
terreiro da execução, onde está o que há de padecer, que o está
esperando com grande coragem com uma espada de pau na mão,
diante de quem chega o matador, e lhe diz que se defenda, porque
vem para o matar, a quem responde o preso com mil roncarias;
mas o solto remete a ele com a sua espada de ambas as mãos, da
qual se quer desviar o preso para alguma banda, mas os que têm
cuidado das cordas puxam por elas de feição que o fazem esperar a
pancada; e acontece muitas vezes que o preso, primeiro que morra, chega com a sua espada ao matador que o trata muito mal, sem
embargo de lhe não deixarem as cordas chegar a ele; por mais que
o pobre trabalhe, não lhe aproveita, porque tudo é dilatar a vida
mais dois credos, onde a rende nas mãos do seu inimigo, que lhe
faz a cabeça em pedaços com sua espada; e quando se acaba esta
execução, tiram-no das cordas e levam-no para onde se costuma
repartir esta carne; e acabado o matador de executar sua ira no cativo, toma logo entre si algum nome, o qual declara depois com as
cerimônias que ficam ditas atrás; e vai-se do terreiro recolher para
o seu lanço, onde tira as armas e petrechos com que se enfeitou;
e a mesma honra ficam recebendo aqueles que primeiro pegaram
dos cativos na guerra, do que tomam também novo nome, com
as mesmas festas e cerimônias que já ficam ditas; o que se não faz
com menos alvoroço que aos próprios matadores.