Segunda parte - Capítulo CLVIII
Que trata do modo de comer e do beber dos tupinambás.
Já fica dito como os principais dos tupinambás, quando comem, estão deitados na rede, e quando comem com eles os parentes, os agasalha consigo; entre os quais comem também os seus
criados e escravos, sem lhe terem nenhum respeito; antes quando
o peixe ou carne não é que sobeje, o principal o reparte por quinhões iguais, e muitas vezes fica ele sem nada, os quais estão todos
em cócoras, com a vasilha em que comem todos no chão no meio
deles, e enquanto comem não bebem vinho, nem água, o que fazem depois de comer. Quando os tupinambás comem à noite, é no
chão como está dito, e virados com as costas para o fogo, e ficam
todos às escuras; e não praticam em coisa alguma quando comem,
senão depois de comer; e, quando têm que, toda a noite não fazem
outra coisa, até que os vence o sono; e por outra parte mantém-se
este gentio com nada, e anda logo dois e três dias sem comer, pelo
que os que são escravos dão pouco trabalho a seus senhores pelo
mantimento, antes eles mantêm os senhores fazendo-lhes suas
roças, e caçando, e pescando-lhes ordinariamente.
Este gentio não come carne de porco, dos que se criam em casa,
senão os escravos criados entre os brancos; mas comem a carne
dos porcos-do-mato e da água; os quais também não comem azeite, senão os ladinos; toda a caça que este gentio come, não a esfola,
e chamuscam-na toda ou pelam-na na água quente, a qual comem
assada ou cozida e as tripas mal-lavadas; ao peixe não escamam
nem lhe tiram as tripas, e assim como vem do mar ou dos rios,
assim o cozem ou assam: o sal de que usam, com que temperam
o seu comer, e em que molham o peixe e carne fazem-no da água
salgada que cozem tanto em uma vasilha sobre o fogo, até que se
coalha e endurece, com o que se remedeiam; mas é sobre o preto,
e requeima.
Este gentio é muito amigo do vinho, assim machos como fêmeas, o qual fazem de todos os seus legumes, até da farinha que
comem; mas o seu vinho principal é de uma raiz a que chamam
aipim, que se coze, e depois pisam-na e tornam-na a cozer e, quando é bem cozida, buscam as mais formosas moças da aldeia para
espremer estes aipins com as mãos e algum mastigado com a
boca, e depois espremido na vasilha, que é o que dizem que lhe
põem a virtude, segundo a sua gentilidade; a esta água e sumo
destas raízes lançam em grandes potes, que para isso têm, onde
este vinho se coze, e está até que se faz azedo; e como o está bem, o
bebem com grandes cantares, e cantam e bailam toda uma noite
às vésperas do vinho, e ao outro dia pela manhã começam a beber,
bailar e cantar; e as moças solteiras da casa andam dando o vinho
em uns meios cabaços, a que chamam cuias, aos que andam cantando, os quais não comem nada enquanto bebem, o que fazem
de maneira que vêm a cair de bêbados por esse chão; e o que faz
mais desatinos nessas bebedices, esse é o mais estimado dos outros, nos quais se fazem sempre brigas; porque aqui se lembram
de seus ciúmes, e castigam por isso as mulheres, ao que acodem os
amigos, e jogam às tiçoadas uns com os outros. São costumados
a almoçar primeiro que se vão às suas roças a trabalhar, onde não
comem enquanto andam no trabalho, senão depois que se vêm
para casa.