Segunda parte - Capítulo V Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 80 de 271
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Segunda parte - Capítulo V

Em que se trata como D. Duarte da Costa foi governar o Brasil.

Como Tomé de Sousa acabou o seu tempo de governador, que

gastou tão bem gastado neste novo Estado do Brasil, requereu à

Sua Alteza que o mandasse tornar para o reino, a cuja petição El-

Rei satisfez com mandar por governador a D. Duarte da Costa, do

seu conselho, ao qual deu a armada conveniente a tal pessoa em

que passou a este Estado, com a qual chegou a salvamento à Bahia

de Todos os Santos; desembarcou na cidade do Salvador, nome

que lhe Sua Alteza mandou pôr; e lhe deu por armas uma pomba

branca em campo verde, com um rolo à roda branco, com letras

de ouro que dizem Sic illa ad Arcam reversa est, e a pomba tem três

folhas de oliva no bico; onde lhe foi dada posse da governança por

Tomé de Sousa, que se logo embarcou na dita armada, e se veio

para o reino, onde serviu a El-Rei D. João e a seu neto, El-Rei D.

Sebastião de veador, e no mesmo cargo serviu depois à rainha D.

Catarina enquanto viveu.

E tornando a D. Duarte, como tomou a posse da governança,

trabalhou quanto foi possível, por fortificar e defender esta cidade do gentio que em seu tempo se alevantou, e cometeu grandes

insultos, os quais ele emendou dissimulando alguns com muita

prudência, e castigando outros com armas, fazendo-lhes crua

guerra, a qual caudilhava seu filho, D. Álvaro da Costa, que nestes trabalhos o acompanhou, e se mostrou neles muito valoroso

capitão.

Em todo o tempo que D. Duarte governou o Brasil, foi todos os

anos favorecido e ajudado com armadas que do reino lhe mandavam, e em que lhe foram muitos moradores e gente forçada com

todo o necessário, ao qual sucedeu Mem de Sá, em cujos feitos já

tocamos, o qual foi também governar este Estado por mandado

d’El-Rei D. João o III, a quem a fortuna favoreceu de feição em

catorze anos, que foi governador do Brasil, que subjugou e desbaratou todo o gentio tupinambá da comarca da Bahia e a todo o

mais até o Rio de Janeiro, de cujos feitos se pode fazer um notável

tratado; o qual Mem de Sá foi pouco favorecido destes reinos, por

lhe falecer logo El-Rei D. João, que com tanto fervor trabalhava

por acrescentar e engrandecer este seu Estado, a quem a rainha D.

Catarina, no tempo que governou nestes reinos, foi imitando; mas

como ela desistiu da governança deles, foram esfriando os favores

e socorros que cada ano esta nova cidade recebia, para a qual não

mandaram dali por diante mais que um galeão da armada, em que

iam os governadores que depois a foram governar, pelo que este

Estado tornou atrás de como ia florescendo. E se esta cidade do

Salvador cresceu em gente, edifícios e fazenda como agora tem,

nasceu-lhe da grande fertilidade da terra, que ajudou aos moradores dela, de maneira que hoje tem no seu termo, da Bahia para

dentro, quarenta engenhos de açúcar, mui prósperos edifícios,

escravaria e outra muita fábrica, dos quais houvera muitos mais,

se os moradores foram favorecidos como convinha, e como eles

estão merecendo por seus serviços, com os quais o Governador

Mem de Sá destruiu e desbaratou o gentio que vivia de redor da

Bahia, a quem queimou e assolou mais de trinta aldeias, e os que

escaparam de mortos ou cativos, fugiram para o sertão e se afastaram do mar mais de quarenta léguas, e com os mesmos moradores

socorreu e ajudou o dito Mem de Sá as capitanias dos Ilhéus, Porto

Seguro e a do Espírito Santo, as quais estavam mui apartadas do

gentio daquelas partes, e com eles foi lançar por duas vezes os

franceses fora do Rio de Janeiro, e a povoá-lo, onde acabaram muitos destes moradores sem até hoje ser dada nenhuma satisfação

a seus filhos. E todos foram fazer estes e outros muitos serviços

à custa, sem darem soldo nem mantimentos, como se costuma

na Índia e nas outras partes, e a troco desses serviços e despesas

dos moradores desta cidade não se fez até hoje nenhuma honra

nem mercê a nenhum deles, do que vivem mui escandalizados e

descontentes.

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