Segunda parte - Capítulo V
Em que se trata como D. Duarte da Costa foi governar o Brasil.
Como Tomé de Sousa acabou o seu tempo de governador, que
gastou tão bem gastado neste novo Estado do Brasil, requereu à
Sua Alteza que o mandasse tornar para o reino, a cuja petição El-
Rei satisfez com mandar por governador a D. Duarte da Costa, do
seu conselho, ao qual deu a armada conveniente a tal pessoa em
que passou a este Estado, com a qual chegou a salvamento à Bahia
de Todos os Santos; desembarcou na cidade do Salvador, nome
que lhe Sua Alteza mandou pôr; e lhe deu por armas uma pomba
branca em campo verde, com um rolo à roda branco, com letras
de ouro que dizem Sic illa ad Arcam reversa est, e a pomba tem três
folhas de oliva no bico; onde lhe foi dada posse da governança por
Tomé de Sousa, que se logo embarcou na dita armada, e se veio
para o reino, onde serviu a El-Rei D. João e a seu neto, El-Rei D.
Sebastião de veador, e no mesmo cargo serviu depois à rainha D.
Catarina enquanto viveu.
E tornando a D. Duarte, como tomou a posse da governança,
trabalhou quanto foi possível, por fortificar e defender esta cidade do gentio que em seu tempo se alevantou, e cometeu grandes
insultos, os quais ele emendou dissimulando alguns com muita
prudência, e castigando outros com armas, fazendo-lhes crua
guerra, a qual caudilhava seu filho, D. Álvaro da Costa, que nestes trabalhos o acompanhou, e se mostrou neles muito valoroso
capitão.
Em todo o tempo que D. Duarte governou o Brasil, foi todos os
anos favorecido e ajudado com armadas que do reino lhe mandavam, e em que lhe foram muitos moradores e gente forçada com
todo o necessário, ao qual sucedeu Mem de Sá, em cujos feitos já
tocamos, o qual foi também governar este Estado por mandado
d’El-Rei D. João o III, a quem a fortuna favoreceu de feição em
catorze anos, que foi governador do Brasil, que subjugou e desbaratou todo o gentio tupinambá da comarca da Bahia e a todo o
mais até o Rio de Janeiro, de cujos feitos se pode fazer um notável
tratado; o qual Mem de Sá foi pouco favorecido destes reinos, por
lhe falecer logo El-Rei D. João, que com tanto fervor trabalhava
por acrescentar e engrandecer este seu Estado, a quem a rainha D.
Catarina, no tempo que governou nestes reinos, foi imitando; mas
como ela desistiu da governança deles, foram esfriando os favores
e socorros que cada ano esta nova cidade recebia, para a qual não
mandaram dali por diante mais que um galeão da armada, em que
iam os governadores que depois a foram governar, pelo que este
Estado tornou atrás de como ia florescendo. E se esta cidade do
Salvador cresceu em gente, edifícios e fazenda como agora tem,
nasceu-lhe da grande fertilidade da terra, que ajudou aos moradores dela, de maneira que hoje tem no seu termo, da Bahia para
dentro, quarenta engenhos de açúcar, mui prósperos edifícios,
escravaria e outra muita fábrica, dos quais houvera muitos mais,
se os moradores foram favorecidos como convinha, e como eles
estão merecendo por seus serviços, com os quais o Governador
Mem de Sá destruiu e desbaratou o gentio que vivia de redor da
Bahia, a quem queimou e assolou mais de trinta aldeias, e os que
escaparam de mortos ou cativos, fugiram para o sertão e se afastaram do mar mais de quarenta léguas, e com os mesmos moradores
socorreu e ajudou o dito Mem de Sá as capitanias dos Ilhéus, Porto
Seguro e a do Espírito Santo, as quais estavam mui apartadas do
gentio daquelas partes, e com eles foi lançar por duas vezes os
franceses fora do Rio de Janeiro, e a povoá-lo, onde acabaram muitos destes moradores sem até hoje ser dada nenhuma satisfação
a seus filhos. E todos foram fazer estes e outros muitos serviços
à custa, sem darem soldo nem mantimentos, como se costuma
na Índia e nas outras partes, e a troco desses serviços e despesas
dos moradores desta cidade não se fez até hoje nenhuma honra
nem mercê a nenhum deles, do que vivem mui escandalizados e
descontentes.