Segunda parte - Capítulo XXXIX
Em que se declara quão terrível peçonha é a da água da mandioca.
Antes de passarmos avante, convém que declaremos a natural
estranheza da água da mandioca que ela de si deita quando a espremem depois de ralada, porque é a mais terrível peçonha que
há nas partes do Brasil, e quem quer que a beba não escapa por
mais contrapeçonha que lhe deem; a qual é de qualidade que as
galinhas em lhe tocando com o bico, e levando uma só gota para
baixo, caem todas da outra banda mortas, e o mesmo acontece
aos patos, perus, papagaios e a todas as aves, pois os porcos cabras,
ovelhas, em bebendo o primeiro bocado, dão três e quatro voltas
em redondo e caem mortos, cuja carne se faz logo negra e nojenta;
o mesmo acontece a todo o gênero de alimária que a bebe; e por
esta razão se espreme esta mandioca por curtir em covas cobertas,
e em outras partes, onde não faça nojo às criações, e se estas alimárias comem a mesma mandioca por espremer, engordam com
ela e não lhes faz dano. Tem esta água tal qualidade que, se metem
nela uma espada ou cossolete, espingarda ou outra qualquer coisa
cheia de ferrugem, lha come em vinte e quatro horas, de maneira
que ficam limpas como quando saem da mó, do que se aproveitam algumas pessoas para limparem algumas peças de armas da
ferrugem que na mó se não podem alimpar sem entrar pelo são.
Nos lugares onde se esta mandioca espreme, se criam na água dela
uns bichos brancos como vermes grandes, que são peçonhentíssimos, com os quais muitas índias mataram seus maridos e senhores, e matam a quem querem, do que também se aproveitavam,
segundo dizem, algumas mulheres brancas contra seus maridos;
e basta lançar-se um destes bichos no comer para uma pessoa não
escapar, sem lhe aproveitar alguma contrapeçonha, porque não
mata com tanta presteza como a água de que se criam, e não se
sente este mal senão quando não tem remédio nenhum.