Segunda parte - Capítulo XLIV
Em que se apontam alguns mantimentos de raízes que se criam debaixo da terra na Bahia.
Como fica dito da mandioca o que em breve se pode dizer dela,
convém que declaremos daqui por diante outros mantimentos
que se dão na Bahia debaixo da terra.
E peguemos logo nas batatas, que são naturais da terra, e se
dão nela, de maneira que onde se plantam uma vez nunca mais se
desinçam, as quais tornam a nascer das pontas das raízes, que ficaram na terra, quando se colheu a novidade delas. As batatas não
se plantam da rama como nas Ilhas, mas de talhadas das mesmas
raízes, e em cada enxadada que dão na terra, sem ser mais cavada, metem uma talhada de batata, as quais se plantam em abril
e começam a colher a novidade em agosto, donde têm que tirar
até todo o março, porque colhem umas batatas grandes e ficam
outras pequenas, que se vão criando em quinze e vinte dias.
Há umas batatas grandes e brancas e compridas como as das
Ilhas; há outras pequenas e redondas como túberas da terra, e
mui saborosas; há outras batatas que são roxas ao longo da casca
e brancas por dentro; há outras que são todas encarnadas e mui
gostosas; há outras que são de cor azul anilada muito fina, as quais
tingem as mãos; há outras verdoengas muito doces e saborosas; e
há outra casta, de cor almecegada, mui saborosas; e outras todas
amarelas, de cor muito tostada, as quais são todas úmidas e ventosas, de que se não faz muita conta entre gente de primor, senão
entre lavradores.
Dão-se na Bahia outras raízes maiores que batatas, a que os
índios chamam carás, que se plantam da mesma maneira que
as batatas, e como nascem põem-lhes ao pé uns paus, por onde
atrepam os ramos que lançam, como erva. Estes carás se plantam
em março e colhem-se em agosto, os quais se comem cozidos e
assados, como os inhames, mas têm melhor sabor; os mais deles
são brancos, outros roxos, outros brancos por dentro e roxos por
fora junto à casca, que são os melhores, e de mor sabor; outros são
todos negros como pós; e uns e outros se curam no fumo, e duram
de um ano para outro. Da massa destes carás fazem os portugueses muitos manjares com açúcar, e cozidos com carne têm muita
graça.
Dão-se nesta terra outras raízes tamanhas como nozes e avelãs, que se chamam mangarás; e quando se colhem arrancam-nos
debaixo da terra em touças como junças e tira-se de cada pé duzentos e trezentos juntos; e o que está no meio é como um ovo,
e como um punho, que é a planta de onde nasceram os outros, o
qual se guarda para se tornar a plantar; e quando o plantam se faz
em talhadas, como as batatas e carás; mas plantam-se tão juntos
e pela ordem com que se dispõe a couvinha, e não se cava a terra
toda, mas limpa do mato a cada enxadada metem uma talhada.
As folhas destes mangarás nascem em moitas como os espinafres,
e são da mesma cor e feição, mas muito maiores, e assim moles
como as dos espinafres, as quais se chamam taiobas, que se comem esperregadas como eles; e são mui medicinais, e também
servem cozidas com o peixe. As raízes destes mangarás se comem
cozidas com água e sal, e dão a casca como tremoços, e molhados em azeite e vinagre são mui gostosos; com açúcar fazem as
mulheres deles mil manjares; e colhem-se duas novidades no ano;
os que se plantam em março se colhem em agosto, e os que se
plantam em setembro se colhem em janeiro.
Dão-se nesta terra outras raízes, que se chamam taiás, que se
plantam como os mangarás, e são de feição de maçarocas, mas
cintadas com uns perfilos com barbas, como raízes de canas de
rota, as quais se comem cozidas na água, mas sempre ficam tesas. As folhas são grandes, de feição e cor das dos plátanos que
se acham nos jardins da Espanha, aos quais chamam taiobuçu;
comem-se estas folhas cozidas com peixe em lugar dos espinafres,
e com favas verdes em lugar das alfaces, e têm mui avantajado sabor; os índios as comem cozidas na água e sal, e com muita soma
de pimenta.