Segunda parte - Capítulo XLIV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 119 de 271
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Segunda parte - Capítulo XLIV

Em que se apontam alguns mantimentos de raízes que se criam debaixo da terra na Bahia.

Como fica dito da mandioca o que em breve se pode dizer dela,

convém que declaremos daqui por diante outros mantimentos

que se dão na Bahia debaixo da terra.

E peguemos logo nas batatas, que são naturais da terra, e se

dão nela, de maneira que onde se plantam uma vez nunca mais se

desinçam, as quais tornam a nascer das pontas das raízes, que ficaram na terra, quando se colheu a novidade delas. As batatas não

se plantam da rama como nas Ilhas, mas de talhadas das mesmas

raízes, e em cada enxadada que dão na terra, sem ser mais cavada, metem uma talhada de batata, as quais se plantam em abril

e começam a colher a novidade em agosto, donde têm que tirar

até todo o março, porque colhem umas batatas grandes e ficam

outras pequenas, que se vão criando em quinze e vinte dias.

Há umas batatas grandes e brancas e compridas como as das

Ilhas; há outras pequenas e redondas como túberas da terra, e

mui saborosas; há outras batatas que são roxas ao longo da casca

e brancas por dentro; há outras que são todas encarnadas e mui

gostosas; há outras que são de cor azul anilada muito fina, as quais

tingem as mãos; há outras verdoengas muito doces e saborosas; e

há outra casta, de cor almecegada, mui saborosas; e outras todas

amarelas, de cor muito tostada, as quais são todas úmidas e ventosas, de que se não faz muita conta entre gente de primor, senão

entre lavradores.

Dão-se na Bahia outras raízes maiores que batatas, a que os

índios chamam carás, que se plantam da mesma maneira que

as batatas, e como nascem põem-lhes ao pé uns paus, por onde

atrepam os ramos que lançam, como erva. Estes carás se plantam

em março e colhem-se em agosto, os quais se comem cozidos e

assados, como os inhames, mas têm melhor sabor; os mais deles

são brancos, outros roxos, outros brancos por dentro e roxos por

fora junto à casca, que são os melhores, e de mor sabor; outros são

todos negros como pós; e uns e outros se curam no fumo, e duram

de um ano para outro. Da massa destes carás fazem os portugueses muitos manjares com açúcar, e cozidos com carne têm muita

graça.

Dão-se nesta terra outras raízes tamanhas como nozes e avelãs, que se chamam mangarás; e quando se colhem arrancam-nos

debaixo da terra em touças como junças e tira-se de cada pé duzentos e trezentos juntos; e o que está no meio é como um ovo,

e como um punho, que é a planta de onde nasceram os outros, o

qual se guarda para se tornar a plantar; e quando o plantam se faz

em talhadas, como as batatas e carás; mas plantam-se tão juntos

e pela ordem com que se dispõe a couvinha, e não se cava a terra

toda, mas limpa do mato a cada enxadada metem uma talhada.

As folhas destes mangarás nascem em moitas como os espinafres,

e são da mesma cor e feição, mas muito maiores, e assim moles

como as dos espinafres, as quais se chamam taiobas, que se comem esperregadas como eles; e são mui medicinais, e também

servem cozidas com o peixe. As raízes destes mangarás se comem

cozidas com água e sal, e dão a casca como tremoços, e molhados em azeite e vinagre são mui gostosos; com açúcar fazem as

mulheres deles mil manjares; e colhem-se duas novidades no ano;

os que se plantam em março se colhem em agosto, e os que se

plantam em setembro se colhem em janeiro.

Dão-se nesta terra outras raízes, que se chamam taiás, que se

plantam como os mangarás, e são de feição de maçarocas, mas

cintadas com uns perfilos com barbas, como raízes de canas de

rota, as quais se comem cozidas na água, mas sempre ficam tesas. As folhas são grandes, de feição e cor das dos plátanos que

se acham nos jardins da Espanha, aos quais chamam taiobuçu;

comem-se estas folhas cozidas com peixe em lugar dos espinafres,

e com favas verdes em lugar das alfaces, e têm mui avantajado sabor; os índios as comem cozidas na água e sal, e com muita soma

de pimenta.

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