Segunda parte - Capítulo CXXI
Que trata da natureza de certas formigas grandes.
Nesta terra se criam umas formigas grandes, a que os índios
chamam quibuquibura, que são as que em Portugal chamam
agudes, mas são maiores. Estas saem dos formigueiros depois que
chove muito, e vão diversas voando por lugares onde enxameiam
grande soma de formigas, e quando lhes toca qualquer coisa, ou
lhes dá o vento, logo lhes caem as asas e morrem; e não pode ser
menos destas enxamearem de voo, porque em hortas cercadas de
água que ficam em ilha, lhes arrebentam formigueiros dentro, estando antes a terra limpa delas, e não podem passar por respeito
da água que cerca estas hortas.
Criam-se na mesma terra outras formigas, a que os índios chamam içás, as quais têm o corpo tamanho como passas de Alicante,
e são da mesma cor, as quais têm asas como os agudes, e também
se saem dos formigueiros depois que chove muito, a enxugar-se
ao sol; e têm grande boca, e tão aguda, que cortam com ela como
tesoura o fato a que chegam, e quando na carne de alguma pessoa
se aferram de maneira que não se podem tirar senão cortando -
-lhe a cabeça com as unhas; as quais se mantêm das folhas das
árvores e de minhocas, e outros bichinhos que tomam pelo chão;
a estas formigas comem os índios torradas sobre o fogo, e fazem -
-lhe muita festa; e alguns homens brancos que andam entre eles, e
os mestiços, têm por bom jantar, e o gabam de saboroso, dizendo
que sabem a passas de Alicante; e torradas são brancas por dentro.
Há outras formigas, a que os índios chamam turusá, que são
ruivas, e têm o corpo tamanho como grão de trigo, e grande boca;
as quais são amigas das caixas, onde roem o fato que está nelas, e
o que acham pelo chão; no qual fazem lavores que parecem feitos
a tesoura, e sucedeu muitas vezes terem os sapateiros o calçado
feito, e ficar nas encóspias do chão, onde lhe chegaram de noite, e
quando veio pela manhã as acharam todas lavradas pela banda da
flor e a tinham toda abocanhada.