Segunda parte - Capítulo CXXIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 198 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXIII

Em que se trata que coisa é o cupim, que há na Bahia, e dos carrapatos.

Cupim são uns bichos que são tão prejudiciais como as formigas, os quais arremedam na feição às formigas, mas são mais curtos, redondos e muito nojentos, e se lhes tocam com as mãos logo

se esborracham, e ficam fedendo a percevejos e são brancacentos.

Estes bichos se criam nas árvores e na madeira das casas, onde

não há quem se defenda deles; os quais vêm do mato por baixo

do chão a entrar nas casas, e trepam pelas paredes aos forros e em

madeiramento delas; e fazem de barro um caminho muito para

ver, que vai todo coberto com uma abóbada de barro em volta de

berço, coisa sutilíssima e tão delgada a parede dela como casca

de castanha, e servem-se por dentro por onde sempre caminham,

uns para cima e outros para baixo; e fazem nas partes mais altas

das casas seus aposentos, pelas juntas de madeira em redondo;

uns tamanhos como bolas, outros como botijas, e tamanhos como

potes; e se se não tem muito tento nisto, destroem umas casas, e

comem-lhes a madeira, e apodrentam-na toda; e o mesmo feito

fazem nas árvores, com que as fazem secar; e é necessário que se

alimpem as casas dele, de quando em quando; e quando lhe tiram

fora estes aposentos, estão todos lavrados por dentro como favo

de mel, mas têm as casas mais miúdas, e todas estas cheias deste

cupim; o qual lançam às galinhas com o que engordam muito.

Pelas árvores se cria outra casta de cupim preto, e do tamanho

e feição do gorgulho que na Espanha se cria no trigo; este morde

muito, e é mais ligeiro que o de cima, e faz seus ninhos pelos ramos das árvores secas; e lavram-nos todos por dentro.

Há na Bahia muitos carrapatos, dos quais se cria infinidade deles no mato, nas folhas das árvores, e com o vento caem no chão;

e quem anda por baixo destas árvores leva logo seu quinhão; dos

quais nasce grande comichão; mas como se untam com qualquer

azeite, logo morrem. Destes carrapatos se pegam muitos na caça

grande, e nas vacas, onde se fazem muito grandes; mas há uns pássaros de que dissemos atrás, que os matam às alimárias e às vacas,

que os esperam muito bem, e mantêm-se disto.

Também se criam nas palmeiras uns caracóis do tamanho de

oito reais, que são baixos e enroscada a casca em voltas como a

postura de uma cobra, quando está enroscada, os quais fazem mal

aos índios, se comem muitos. Dos caracóis da Espanha se criam

muitos nas árvores e nas ervas.

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