Segunda parte - Capítulo CLXXXVII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 262 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXXXVII

Em que se declara a pedra que tem a Bahia para se poder fortificar.

A primeira coisa que convém para se fortificar a Bahia é que

tem pedra de alvenaria e cantaria, de que há em todo o seu circuito muita comodidade, e grande quantidade para se poder fazer

grandes muros, fortalezas e outros edifícios; porque de redor da

cidade há muita pedra preta, assim ao longo do mar como pela

terra, a qual é de pedreiras boas de quebrar, com a qual se fazem

paredes mui bem liadas; e pelos limites desta cidade há muita

pedra molar, como a de alvenaria de Lisboa, com que se faz boa

obra; e ao longe do mar, meia légua da cidade, e em muitos lugares

mais afastados, há muitas lagoas de pedra mole como tufo, de que

se fazem cunhais em obra de alvenaria, com as quais se liam os

edifícios que se na terra fazem, e se afeiçoam os cunhais destas

lajes com pouco trabalho, por estarem cortados pela natureza

conforme o para que são necessários.

Quando se edificou a cidade do Salvador, se aproveitaram os

edificadores e povoadores dela de uma pedra cinzenta boa de

lavrar, que iam buscar por mar ao porto de Itapitanga, que está

sete léguas da cidade na mesma Bahia, da qual fizeram as colunas

da Sé, portais e cunhais e outras obras de meio relevo, e muitas

campas e outras obras proveitosas; mas depois se descobriu outra

pedreira melhor, que se arranca dos arrecifes que se cobrem com

a preamar da maré de águas vivas ao longo do mar, a qual pedra

é alva e dura, que o tempo nunca gasta, mas trabalhosa de lavrar

que gasta as ferramentas muito; de que se fazem obras mui primas

e formosas, e campas de sepulturas mui grandes; e parece a quem

isso tem atentado que esta pedra se faz da areia congelada; porque

ao longo dos mesmos arrecifes, bem chegados a eles, é tudo rochedo de pedra preta, e estoutra é muito branca, depois de lavrada;

mas não é muito macia, a qual quando a lavram faz sempre uma

grã areenta, e acham-se muitas vezes no âmago destas pedras cascas de ostras e de outro marisco, e uns seixinhos de areia, pelo que

se tem que esta pedra se formou de areia e que se congelou com

a frialdade da água do mar, o que é fácil de crer, porque se acham

por estas praias limos enfarinhados de areia, que está congelada

e dura como pedra, e alguns paus de ramos de árvores também

cobertos desta massa tão dura como se fossem de pedra.

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