Segunda parte - Capítulo LXI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 136 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXI

Daqui por diante, se vão relatando as qualidades das ervas de virtude que se criam na Bahia, e comecemos logo a dizer da erva-santa e

outras ervas semelhantes.

Petume é a erva a que em Portugal chamam santa; onde há

muito dela pelas hortas e quintais, pelas grandes mostras que tem

dado da sua virtude, com a qual se têm feito curas estranhas; pelo

que não diremos desta erva se não o que é notório a todos, como

é matarem com o seu sumo os vermes que se criam em feridas

e chagas de gente descuidada; com a qual se curam também as

chagas e feridas das vacas e das éguas sem outra coisa, e com o

sumo desta erva lhe encouram. Deu na costa do Brasil uma praga

no gentio, como foi adoecerem do sesso e criarem bichos nele, da

qual doença morreu muita soma desta gente, sem se entender de

quê; e, depois que se soube o seu mal, se curaram com esta erva -

-santa, e se curam hoje em dia os tocados deste mal, sem terem

necessidade de outra mezinha.

A folha desta erva, como é seca e curada, é muito estimada dos

índios e mamelucos e dos portugueses, que bebem o fumo dela,

ajuntando muitas folhas destas torcidas umas às outras, e metidas

num canudo de folha de palma, e põe-se-lhe o fogo por uma banda, e como faz brasa metem este canudo pela outra banda na boca,

e sorvem-lhe o fumo para dentro até que lhe sai pelas ventas fora.

Todo o homem que se toma do vinho, bebe muito deste fumo, e

dizem que lhe faz esmoer o vinho. Afirmam os índios que quando

andam pelo mato e lhes falta o mantimento, matam a fome e a

sede com este fumo, pelo que o trazem sempre consigo, e não há

dúvida senão que este fumo tem virtude contra a asma, e os que

são doentes dela se acham bem com ele, cuja natureza é muito

quente.

Pino é pontualmente na folha, como as que em Portugal chamam figueira-do-inferno. Esta erva dá o fruto em cachos cheios

de bagos, tamanhos como avelãs, todos cheios de bicos; cada um

destes bagos tem dentro um grão pardo, tamanho como um feijão, o qual pisado se desfaz todo em azeite, que serve na candeia;

bebido serve tanto como purga de canafístula; e para os doentes

de cólica, bebido este azeite, se lhe passa o acidente logo; as folhas

desta erva são muito boas para desafogarem chagas e postemas.

Jeticuçu é uma erva que nasce pelos campos e lança por cima

da terra uns ramos como batatas, os quais dão umas sementes pretas como ervilhacas grandes; deitam estas ervas umas raízes por

baixo da terra como batatas, que são maravilhosas para purgar, do

que se usa muito na Bahia; as quais raízes se cortam em talhadas,

em verdes, que são por dentro alvíssimas e secam-nas muito bem

ao sol; e tomam dessas talhadas, depois de secas, para cada purga o

peso de dois reais de prata, e lançando em vinho ou em água muito bem pisado se dá a beber ao doente de madrugada e faz maravilhas. Destas raízes se faz conserva em açúcar raladas muito bem,

como cidrada, e tomada pela manhã uma colher desta conserva

faz-se com ela mais obra, que com açúcar rosado de Alexandria.

Pecauém são uns ramos que atrepam como parra, cuja folha

é pequena, redonda e brancacenta; as suas raízes são como de

junça brava, mas mais grossas, as quais têm grande virtude para

estancar câmaras; do que se usa tomando uma pequena desta raiz

pisada e lançada em água; posta a serenar e dada a beber ao doente

de câmaras de sangue lhas faz estancar logo.

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