Segunda parte - Capítulo LX
Que trata da árvore da almécega, e de outras árvores de virtude.
Há outras árvores de muita estima, a que os índios chamam
ubiracica; tem honesta grandura, de cuja madeira se não aproveitam, mas valem-se de sua resina, de que lança grande quantidade,
e quando a deita é muito mole e pegajosa; a qual é maravilhosa
almécega, que faz muita vantagem à que se vende nas boticas, e
para uma árvore lançar muito picam-na ao longo da casca com
muitos piques, e logo começa a lançar por eles almécega, que lhe
os índios vão apanhando com umas folhas, onde a vão ajuntando
e fazem em pães.
Esta almécega é muito quente por natureza, da qual fazem emplastos para defensivo da frialdade, e para soldar carne quebrada,
e para fazer vir a furo postemas, os quais faz arrebentar por si, e
lhes chupa de dentro os carnegões, e derretida é boa para escaldar
feridas frescas, e faz muita vantagem à terebintina de bétula; com
a qual almécega se fazem muitos unguentos e emplastos para
quebraduras de perna, à qual os índios chamam icica.
Corneíba é uma árvore que na folha, na flor, na baga e no cheiro
é a aroeira da Espanha, e tem a mesma virtude para os dentes, e é
diferente na grandura das árvores, que são tamanhas como oliveira, de cuja madeira se faz boa cinza para decoada dos engenhos.
Naturalmente se dão estas árvores em terra de areia, debaixo de
cujas raízes se acha muita anime que é, no cheiro, na vista e na
virtude como a de Guiné, pelo que se entende que o destila de
si, pelo baixo do tronco da árvore, porque se não acha junto de
outras árvores.
Em algumas partes do sertão da Bahia se acham árvores de
canafístula, a que o gentio chama geneúnia, mas de agrestes dão
a canafístula muito grossa e comprida; e tem a côdea áspera, mas
quebrada, e da mesma feição, assim nas pevides que tem como no
preto; que se come e tem o mesmo saibo, da qual não usa o gentio,
porque não sabe para o que ela presta. Em algumas fazendas há
algumas árvores de canafístula, que nasceram das que foram de
São Tomé que dão o fruto mui perfeito como o das Índia.
Cuipeúna é uma árvore pontualmente como a murta de
Portugal, e não tem outra diferença que fazer maior árvore e ter a
folha maior no viço da terra, a qual se dá pelos campos da Bahia,
cuja flor e o cheiro é da murta, mas não dá murtinhos; da qual
murta se usa na Misericórdia para cura dos penitentes e para todos os lavatórios, para que ela serve, porque tem a mesma virtude
dessecativa.
Ao longo do mar da Bahia, nascem umas árvores que têm o
pé como parras, as quais atrepam por outras árvores grandes, por
onde lançam muitos ramos como vides, as quais se chamam mucunás, cujo fruto são umas favas redondas e aleonadas na cor, e
do tamanho de um tostão, as quais têm um círculo preto, e na
cabeça um olho branco. Estas favas para comer são peçonhentas,
mas têm grande virtude para curar com elas feridas velhas desta
maneira: depois de serem estas favas bem secas, hão-se de pisar
muito bem, e cobrir as chagas com os pós delas, as quais comem
todo o câncer e carne podre.
Criam-se nesta terra outras árvores semelhantes às de cima,
que atrepam por outras maiores, que se chamam o cipó das feridas, as quais são umas favas aleonadas pequenas, da feição das
de Portugal, cuja folha pisada e posta nas feridas, sem outros unguentos as cura muito bem.
Há uns mangues, ao longo do mar, a que o gentio chama apareíba, que têm a madeira vermelha e rija, de que se faz carvão; cuja
casca é muito áspera, e tem tal virtude que serve aos curtidos para
curtir toda a sorte de peles, em lugar de sumagre, com o que fazem
tão bom curtume como com ele. Estes mangues fazem as árvores
muito direitas, dão umas candeais verdes compridas, que têm
dentro uma semente como lentilhas, de que elas nascem.