Segunda parte - Capítulo XL
Que trata da farinha que se faz da mandioca.
O mantimento de mais estima e proveito que faz da mandioca
é a farinha fresca, a qual se faz destas raízes, que se lançam primeiro a curtir, de que se aproveita o gentio; e os portugueses, que não
fazem a farinha da mandioca crua, de que atrás temos dito, senão
por necessidade.
Costumam as índias lançar cada dia destas raízes na água corrente ou na enxarcada, quando não têm perto a corrente, onde
está a curtir até que lança a casca de si; e como está dessa maneira,
está curtida; da qual traz para casa outra tanta como lança na água
para curtir, as quais raízes escascadas ficam muito alvas e brandas,
sem nenhuma peçonha, que toda se gastou na água, as quais se
comem assadas e são muito boas.
E para se fazer a farinha destas raízes se lavam primeiro muito
bem, e depois, desfeitas a mão, se espremem no tapeti, cuja água
não faz mal; depois de bem espremidas desmancham esta massa
sobre uma urupema, que é como joeira, por onde se coa o melhor,
e ficam os caroços em cima e o pó que se coou lançam-no em um
alguidar que está sobre o fogo, onde se enxuga e coze da maneira
que fica dito, e fica como cuscuz, a qual em quente e em fria é
muito boa e assim no sabor como em ser sadia e de boa digestão.
Os índios usam destas raízes tão curtidas que ficam denegridas e a
farinha, azeda. Os portugueses não a querem curtida mais que até
dar a casca, à qual mandam misturar algumas raízes de mandioca
crua, com o que fica a farinha mais alva e doce; e desta maneira se
aproveitam da mandioca, a qual farinha fresca dura sem se danar
cinco a seis dias, mas faz-se seca; e quem é bem servido em sua
casa come-a sempre fresca e quente.
Estas raízes da mandioca curtida têm grande virtude para
curar postemas, as quais se pisam muito bem sem se espremerem;
e, feito da massa um emplasto, posto sobre a postema a molefica
de maneira que a faz arrebentar por si, se a não querem furar.