Segunda parte - Capítulo XL Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 115 de 271
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Segunda parte - Capítulo XL

Que trata da farinha que se faz da mandioca.

O mantimento de mais estima e proveito que faz da mandioca

é a farinha fresca, a qual se faz destas raízes, que se lançam primeiro a curtir, de que se aproveita o gentio; e os portugueses, que não

fazem a farinha da mandioca crua, de que atrás temos dito, senão

por necessidade.

Costumam as índias lançar cada dia destas raízes na água corrente ou na enxarcada, quando não têm perto a corrente, onde

está a curtir até que lança a casca de si; e como está dessa maneira,

está curtida; da qual traz para casa outra tanta como lança na água

para curtir, as quais raízes escascadas ficam muito alvas e brandas,

sem nenhuma peçonha, que toda se gastou na água, as quais se

comem assadas e são muito boas.

E para se fazer a farinha destas raízes se lavam primeiro muito

bem, e depois, desfeitas a mão, se espremem no tapeti, cuja água

não faz mal; depois de bem espremidas desmancham esta massa

sobre uma urupema, que é como joeira, por onde se coa o melhor,

e ficam os caroços em cima e o pó que se coou lançam-no em um

alguidar que está sobre o fogo, onde se enxuga e coze da maneira

que fica dito, e fica como cuscuz, a qual em quente e em fria é

muito boa e assim no sabor como em ser sadia e de boa digestão.

Os índios usam destas raízes tão curtidas que ficam denegridas e a

farinha, azeda. Os portugueses não a querem curtida mais que até

dar a casca, à qual mandam misturar algumas raízes de mandioca

crua, com o que fica a farinha mais alva e doce; e desta maneira se

aproveitam da mandioca, a qual farinha fresca dura sem se danar

cinco a seis dias, mas faz-se seca; e quem é bem servido em sua

casa come-a sempre fresca e quente.

Estas raízes da mandioca curtida têm grande virtude para

curar postemas, as quais se pisam muito bem sem se espremerem;

e, feito da massa um emplasto, posto sobre a postema a molefica

de maneira que a faz arrebentar por si, se a não querem furar.

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