Segunda parte - Capítulo CXVI
Que trata das lagartas que se criam na Bahia. Soca chamam os índios à lagarta, que é também como bichos - -da-seda, quando querem morrer que estão gordos, a qual se cria
de borboletas grandes que vão de passagem. Às vezes se cria essa
lagarta com muita água e morre quando faz sol; outras vezes se
cria com grande seca e morre quando chove. Uma e outra destrói
as novidades de mandioca, algodão, arroz; e faz mal à cana nova
de açúcar, e às vezes é tanta esta lagarta, que vão as estradas cheias
delas, e deixam o caminho varrido da erva, e escaldado. E quando
dão nas roças da mandioca chasqueiam de maneira que se ouve
um tiro de pedra, às quais comem os olhinhos novos, e depois as
outras folhas; e muitas vezes é tanta que comem a casca dos ramos
da mandioca; e se se não muda o tempo, destroem as novidades de
maneira que causa haver fome na terra, e o chão por onde esta
praga passa, ainda que seja mato, fica escaldado de maneira que
não cria erva em dois anos.
Imbuá é outra casta de lagartas verdes pintadas de preto e a cabeça branca, e outras pintadas de vermelho e preto, e todas são tão
grossas como um dedo, e de meio palmo de comprido, com muitas pernas, e as quais crestam a terra e árvores por onde passam.
Há outras, menores que as de trás, que são pretas, de cor muito
fina, todas cheias de pelo tão macio como veludo, e tão peçonhento que faz inchar a carne se lhe tocam, com cujo pelo os índios
fazem crescer a natura; e chamam a estas socaúna.
Nos limoeiros e em outras árvores naturais da terra se criam
outras lagartas verdes, todas cobertas de esgalhos verdes, muito
sutis e de estranho feitio, tão delgados como cabelos da cabeça, o
que é impossível poder-se contrafazer com pintura; estas têm os
índios por mais peçonhentas que todas, e fogem muito delas; e
afirmam que fazem secar os ramos das árvores por onde passam
com lhes morderem os olhos.
Em que outras árvores, que se chamam cajueiros, se criam umas
lagartas ruivaças, tamanhas como as das couves em Portugal,
todas cobertas de pelo, as quais sentem gente debaixo, sacodem
este pelo de si, e na carne onde chega, se levanta logo tamanha
comichão, que é pior que a das urtigas, o que dura todo um dia; e
criam-se estas nos ramos velhos.