Segunda parte - Capítulo CXVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 191 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXVI

Que trata das lagartas que se criam na Bahia. Soca chamam os índios à lagarta, que é também como bichos - -da-seda, quando querem morrer que estão gordos, a qual se cria

de borboletas grandes que vão de passagem. Às vezes se cria essa

lagarta com muita água e morre quando faz sol; outras vezes se

cria com grande seca e morre quando chove. Uma e outra destrói

as novidades de mandioca, algodão, arroz; e faz mal à cana nova

de açúcar, e às vezes é tanta esta lagarta, que vão as estradas cheias

delas, e deixam o caminho varrido da erva, e escaldado. E quando

dão nas roças da mandioca chasqueiam de maneira que se ouve

um tiro de pedra, às quais comem os olhinhos novos, e depois as

outras folhas; e muitas vezes é tanta que comem a casca dos ramos

da mandioca; e se se não muda o tempo, destroem as novidades de

maneira que causa haver fome na terra, e o chão por onde esta

praga passa, ainda que seja mato, fica escaldado de maneira que

não cria erva em dois anos.

Imbuá é outra casta de lagartas verdes pintadas de preto e a cabeça branca, e outras pintadas de vermelho e preto, e todas são tão

grossas como um dedo, e de meio palmo de comprido, com muitas pernas, e as quais crestam a terra e árvores por onde passam.

Há outras, menores que as de trás, que são pretas, de cor muito

fina, todas cheias de pelo tão macio como veludo, e tão peçonhento que faz inchar a carne se lhe tocam, com cujo pelo os índios

fazem crescer a natura; e chamam a estas socaúna.

Nos limoeiros e em outras árvores naturais da terra se criam

outras lagartas verdes, todas cobertas de esgalhos verdes, muito

sutis e de estranho feitio, tão delgados como cabelos da cabeça, o

que é impossível poder-se contrafazer com pintura; estas têm os

índios por mais peçonhentas que todas, e fogem muito delas; e

afirmam que fazem secar os ramos das árvores por onde passam

com lhes morderem os olhos.

Em que outras árvores, que se chamam cajueiros, se criam umas

lagartas ruivaças, tamanhas como as das couves em Portugal,

todas cobertas de pelo, as quais sentem gente debaixo, sacodem

este pelo de si, e na carne onde chega, se levanta logo tamanha

comichão, que é pior que a das urtigas, o que dura todo um dia; e

criam-se estas nos ramos velhos.

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