Segunda parte - Capítulo L Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 125 de 271
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Segunda parte - Capítulo L

Em que se declara a natureza das pacobas e bananas.

Pacoba é uma fruta natural desta terra, a qual se dá em uma árvore muito mole e fácil de cortar, cujas folhas são de doze e quinze

palmos de comprido e de três e quatro de largo; as de junto ao olho

são menores, muito verdes umas e outras, e a árvore da mesma cor

mas mais escura; na Índia chamam a estas pacobeiras figueiras e

ao fruto, figos. Cada árvore destas não dá mais que um só cacho

que pelo menos tem passante de duzentas pacobas, e como este

cacho está de vez, cortam a árvore pelo pé e de um só golpe que

lhe dão com uma foice a cortam e cerceiam, como se fora um

nabo, do qual corte corre logo água em fio, e em vinte e quatro horas torna a lançar do meio do corte um olho mui grosso de onde

se gera outra árvore; de redor deste pé arrebentam muitos filhos

que aos seis meses dão fruto, e ao mesmo faz à mesma árvore. E

como se corta esta pacobeira, tiram-lhe o cacho que tem o fruto

verde e muito teso, e dependuram-no em parte onde amadureça,

e se façam amarelas as pacobas; e na casa onde se fizer fogo amadurecem mais depressa com a quentura; e como esta fruta está

madura, cheira muito bem. Cada pacoba destas tem um palmo

de comprido e a grossura de um pepino, às quais tiram as cascas,

que são de grossura das favas; e fica-lhes o miolo inteiro almecegado, muito saboroso. Dão-se estas pacobas assadas aos doentes

em lugar de maçãs, das quais se faz marmelada muito sofrível, e

também as concertam como berinjelas, e são muito gostosas; e

cozidas no açúcar com canela são estremadas, e passadas ao sol

sabem a pêssegos passados. Basta que de toda a maneira são muito

boas, e dão em todo o ano; mas no inverno não há tantas como no

verão, e a estas pacobas chama o gentio pacobuçu, que quer dizer

pacoba grande.

Há outra casta que não são tamanhas, mas muito melhores

no sabor, e vermelhaças por dentro quando as cortam, e se dão e

criam da mesma maneira das grandes.

Há outra casta, que os índios chamam pacobamirim, que quer

dizer pacoba pequena, que são do comprimento de um dedo, mas

mais grossas; essas são tão doces como tâmaras, em tudo mui

excelentes.

As bananeiras têm árvores, folhas e criação como as pacobeiras, e não há nas árvores de umas às outras nenhuma diferença,

as quais foram ao Brasil de São Tomé, onde ao seu fruto chamam

bananas e na Índia chamam a estes figos de horta, as quais são

mais curtas que as pacobas, mas mais grossas e de três quinas; têm

a casca da mesma cor e grossura das das pacobas, e o miolo mais

mole, e cheiram melhor quando são de vez, às quais arregoa a casca como vão amadurecendo e fazendo algumas fendas ao alto, o

que fazem na árvore; e não são tão sadias como as pacobas.

Os negros da Guiné são mais afeiçoados a estas bananas que às

pacobas, e delas usam nas suas roças; e umas e outras se querem

plantadas em vales perto da água, ou ao menos em terra que seja

muito úmida para se darem bem e também se dão em terras secas

e de areia; quem cortar atravessadas as pacobas ou bananas, ver -

-lhes-á no meio uma feição de crucifixo, sobre o que contemplativos têm muito que dizer.

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