Segunda parte - Capítulo CXXXI
Que trata das propriedades dos meros, cavalas, pescadas e xaréus.
Cunapu são uns peixes a que chamam em Portugal meros, os
quais são mui grandes, e muitos morrem tamanhos que lhes caberia na boca um grande leitão de seis meses; e por façanha se meteu
já um negrinho de três anos dentro da boca de um destes peixes,
os quais têm tamanhos fígados como um carneiro, e sal-pimentados são muito bons; e têm o bucho tamanho como uma grande
cidra, o qual cozido e recheado dos fígados tem muito bom sabor;
o couro deste peixe é tão grosso como um dedo e muito gordo, o
qual se toma com qualquer anzol e linha, sem trabalharem por
se soltarem dele, e no tempo das águas vivas se tomam numas
tapagens de pedras e de paus, a que os índios chamam camboas,
onde morrem muitos, os quais salpresos são muito bons.
Cupás são uns peixes a que os portugueses chamam pescadas
bicudas, que são pontualmente da feição das Ilhas Terceiras, mas
muito maiores e mais gostosas, as quais se tomam à linha; e salpresas de um dia para outro, fazem as postas folhas como as boas
pescadas de Lisboa e em extremo são saborosas.
Guarapecu são uns peixes a que os portugueses chamam
cavalas, das quais há muitas que começam a entrar na Bahia no
verão com os nordestes, e recolhem-se com eles, com a criação
que desovaram na Bahia. São estes peixes maiores que as grandes
pescadas, mas de feição e cor dos sáveis, os quais não comem a
isca estando queda; pelo que os pescadores vão andando sempre
com as jangadas; e acodem então à isca, e pegam do anzol, que é
grande, por trabalhar muito quando se sente preso. Este peixe é
muito saboroso, e quando está gordo sabem as suas ventrechas
a sável, cujo rabo é gordíssimo, e tem grandes ovas, em extremo
saborosas; os seus ossos do focinho se desfazem todos entre os
dentes em manteiga; e salpreso este peixe é muito gostoso, e se faz
todo em folhas como pescada, mas é muito avantajado no sabor
e levidão.
Chamam os índios guiará ao que os portugueses chamam
xaréu, que é peixe largo, branco, prateado e teso, o qual, quando
é gordo, é em extremo saboroso; e tem nas pontas das espinhas,
nas costas, uns ossos alvos atonelados, tão grossos no meio como
avelãs, mas compridos; o qual peixe morre à linha e em redes em
todo o ano, e além de ser gostoso é muito sadio.