Segunda parte - Capítulo XXIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 98 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXIII

Em que se declara a feição da terra da boca de Matoim até o esteiro

de Mataripe e os engenhos que tem em si.

Saindo pela boca de Matoim fora, virando sobre a mão direita,

vai a terra fabricada com fazendas e canaviais dali a meia légua,

onde está outro engenho de Sebastião de Faria, de duas moendas

que lavram com bois, o qual tem grandes edifícios, assim do engenho como de casas de purgar, de vivenda e de outras oficinas e

tem uma formosa igreja de Nossa Senhora da Piedade, que é freguesia deste limite, a qual fazenda mostra tanto aparato da vista

do mar que parece uma vila.

E indo correndo a ribeira do Salgado deste engenho a meia légua, está tudo povoado de fazendas, e no cabo está uma que foi do

deão da sé, com uma ermida” de Nossa Senhora muito concertada,

a qual está numa ponta da terra. Defronte dessa ponta, bem chegada à terra firme, está uma ilha, que se diz de Pedro Fernandes,

onde ele vivia com sua família e tem sua granjearia de canaviais e

roças com água dentro.

Da fazenda do deão se começa de ir armando a enseada que

dizem de Jacarecanga, no meio da qual está um formoso engenho

de bois de Cristóvão de Barros até onde está tudo povoado de fazendas e lavrado de canaviais; este engenho tem mui grandes edifícios e uma igreja de Santo Antônio. Esta enseada está em feição

de meia lua e terá, segundo a feição da terra, duas léguas, na qual

está uma ribeira de água em que se pode fazer um engenho, o qual

se deixa de fundar por se não averiguar o litígio que sobre ela há;

e toda esta enseada à roda, sobre a vista da água, está povoada de

fazendas e formosos canaviais.

E saindo dessa enseada, virando sobre a ponta da mão direita,

vai correndo a terra fazendo um canto em espaço de meia légua,

na qual estão dois engenhos de bois, um de Tristão Rodrigo junto

da ponta da enseada, defronte da qual à Ilha de Maré está um ilhéu

que se chama de Pacé, de onde tomou o nome a terra firme deste

limite. Este engenho de Tristão Rodrigo tem uma fresca ermida de

Santa Ana. O outro engenho está no cabo desta terra que é de Luís

Gonçalves Varejão, no qual tem outra igreja de Nossa Senhora do

Rosário, que é freguesia desse limite.

Deste engenho se torna a afeiçoar a terra fazendo ponta para

o mar, que terá comprimento de meia légua, e no cabo dela se

chama a ponta de Tomás Alegre, até onde está tudo povoado de

fazendas e canaviais, em que entra uma casa de meles de Marcos

da Costa. Defronte desta ponta está o fim da Ilha de Maré, daqui

torna a fugir a terra para dentro, fazendo um modo de enseada em

espaço de uma légua, que toda está povoada de nobres fazendas

e grandes canaviais, no cabo da qual está um formoso engenho

de água de Tomás Alegre, que tem uma ermida de Santo Antônio

mui bem concertada. Deste engenho a uma légua é o cabo de um

esteiro, que se diz a Petinga, até onde está tudo povoado e plantado de canaviais mui formosos. Esta Petinga é uma ribeira assim

chamada, onde se pode fazer um formoso engenho de água, o que

se não faz por haver contenda sobre a dita ribeira.

Por aqui se serve o engenho de Miguel Batista, que está pela

terra dentro meia légua, o qual tem mui ornados edifícios e uma

ermida de Nossa Senhora mui concertada. E tornando atrás ao

esteiro e porto de Petinga, torna a terra a correr para o mar obra

de meia légua, onde faz uma ponta em redondo, onde está uma

formosa fazenda de André Monteiro, da qual torna a terra a recuar

para trás meia légua por um esteiro acima, que se diz de Mataripe,

onde está uma casa de meles de João Adrião, mercador; por este

esteiro se serve a igreja, e julgado do lugar de Tayaçupina, que está

meia légua pela terra dentro em um alto à vista do mar, povoação

em que vivem muitos moradores que lavram neste sertão algodões e mantimentos e a igreja é da invocação de Nossa Senhora

do Ó.

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