Segunda parte - Capítulo CXII
Em que se declara que cobras são as de cascavel, e as dos formigueiros, e as que chamam boitiapoia.
Boicininga quer dizer “cobra tange”, pela língua do gentio; as
quais são pequenas e muito peçonhentas quando mordem; chamam-lhes os portugueses cobras de cascavel, porque têm sobre
o rabo uma pele dura, ao modo de reclamo, tamanha como uma
bainha de gravanço, mas é muito aguda na ponta que tem para
cima, onde tem dois dentes, com que mordem, que são agudos.
Esta bainha lhes retine muito, quando andam, pelo que são logo
sentidas, e não fazem tanto dano. E afirmam os índios que as cobras desta casta não mordem com a boca mas com aquele aguilhão farpado que têm neste cascavel, o qual também retine fora
da cobra; e tem tantos reclamos como a cobra tem de anos; e cada
ano lhe nasce um; as quais cobras mordem ou picam com esta
ponta de cascavel de salto.
Nos formigueiros velhos se criam outras cobras, que se chamam ubojara, que são de três a cinco palmos e têm o rabo rombo
na ponta, da feição da cabeça; e não têm outra diferença um do
outro que ter a cabeça boca, em a qual não têm olhos e são cegas;
e saem dos formigueiros quando se eles enchem com a água da
chuva; e quando se saem fora, ficam perdidas sem saberem por
onde andam; e, se chegam a morder, são também mui peçonhentas. Estas cobras não são ligeiras como as outras, e andam muito
devagar; têm a pele de cor acatassolada pela banda de cima, e pela
de baixo são brancas; mantêm-se nos formigueiros das formigas
quando as podem alcançar, e do seu mantimento, de onde também se saem apertadas de fome.
Boitiapoias são cobras de cinquenta e sessenta palmos de comprido e muito delgadas, que não mordem a nada; porque têm o
focinho muito comprido e o queixo de baixo muito curto; onde
têm a boca muito pequena e não podem chegar com os dentes a
quem querem fazer mal, porque lho impede o focinho; mas para
matarem uma pessoa ou alimária enroscam-se com ela, e apertam-na rijamente e buscam-lhe com a ponta do rabo os ouvidos,
pelos quais lhe metem com muita presteza, porque a têm muito
dura e aguda; e por este lugar matam a presa, em que se depois
desenfadam à vontade.