Segunda parte - Capítulo CXLIX
Que trata de como se dividiram os tupinambás, e se passaram à Ilha
de Itaparica e dela a Jaguaripe.
Entre os tupinambás moradores da banda da cidade armaram
desavenças uns com os outros sobre uma moça que um tomou a
seu pai por força, sem lha querer tomar; com a qual desavença se
apartou toda a parentela do pai da moça, que eram índios principais, com a gente de suas aldeias, e passaram-se à Ilha de Itaparica,
que está no meio da Bahia, com os quais se lançou outra muita
gente, e incorporaram-se com os vizinhos do Rio Paraguaçu, e
fizeram guerra aos da cidade, a cujo limite chamavam Caramurê;
e salteavam-se uns aos outros cada dia, e ainda hoje em dia há memória de uma ilheta, que se chama a do Medo, por se esconderem
detrás dela; onde faziam ciladas uns aos outros com canoas, em
que se matavam cada dia muitos deles. Destes tupinambás que se
passaram à Ilha de Itaparica, se povoou o Rio Jaguaripe, Tinharé e
a costa dos Ilhéus; e tamanho ódio se criou entre esta gente, sendo
toda uma por sua avoenga, que ainda hoje, entre esses poucos que
há, se querem tamanho mal que se matam uns aos outros, se o podem fazer, em tanto que, se encontram alguma sepultura antiga
dos contrários, lhe desenterram a caveira, e lha quebram, com o
que tomam nome novo, e de novo se tornam a inimizar.
E em tempo que os portugueses tinham já povoado este Rio de
Jaguaripe, houve na sua povoação grande ajuntamento de aldeia
dos índios ali vizinhos, para quebrarem caveiras em terreiros, com
grandes festas, para os quebradores das cabeças tomarem novos
nomes, as quais caveiras foram desenterrar a uma aldeia despovoada para vingança de morte dos pais ou parentes dos quebradores delas, para o que as enfeitavam com penas de pássaros ao seu
modo; nas quais festas houve grandes bebedices, o que ordenaram
os portugueses ali moradores para se escandalizarem os parentes
dos defuntos, e se quererem de novo mal; porque se temiam que
se viessem a confederar uns com os outros para lhes virem fazer
guerra, o que foi bastante para não o fazerem, e se assegurarem
com isto os portugueses que viviam neste rio.