Segunda parte - Capítulo CXLIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 224 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXLIX

Que trata de como se dividiram os tupinambás, e se passaram à Ilha

de Itaparica e dela a Jaguaripe.

Entre os tupinambás moradores da banda da cidade armaram

desavenças uns com os outros sobre uma moça que um tomou a

seu pai por força, sem lha querer tomar; com a qual desavença se

apartou toda a parentela do pai da moça, que eram índios principais, com a gente de suas aldeias, e passaram-se à Ilha de Itaparica,

que está no meio da Bahia, com os quais se lançou outra muita

gente, e incorporaram-se com os vizinhos do Rio Paraguaçu, e

fizeram guerra aos da cidade, a cujo limite chamavam Caramurê;

e salteavam-se uns aos outros cada dia, e ainda hoje em dia há memória de uma ilheta, que se chama a do Medo, por se esconderem

detrás dela; onde faziam ciladas uns aos outros com canoas, em

que se matavam cada dia muitos deles. Destes tupinambás que se

passaram à Ilha de Itaparica, se povoou o Rio Jaguaripe, Tinharé e

a costa dos Ilhéus; e tamanho ódio se criou entre esta gente, sendo

toda uma por sua avoenga, que ainda hoje, entre esses poucos que

há, se querem tamanho mal que se matam uns aos outros, se o podem fazer, em tanto que, se encontram alguma sepultura antiga

dos contrários, lhe desenterram a caveira, e lha quebram, com o

que tomam nome novo, e de novo se tornam a inimizar.

E em tempo que os portugueses tinham já povoado este Rio de

Jaguaripe, houve na sua povoação grande ajuntamento de aldeia

dos índios ali vizinhos, para quebrarem caveiras em terreiros, com

grandes festas, para os quebradores das cabeças tomarem novos

nomes, as quais caveiras foram desenterrar a uma aldeia despovoada para vingança de morte dos pais ou parentes dos quebradores delas, para o que as enfeitavam com penas de pássaros ao seu

modo; nas quais festas houve grandes bebedices, o que ordenaram

os portugueses ali moradores para se escandalizarem os parentes

dos defuntos, e se quererem de novo mal; porque se temiam que

se viessem a confederar uns com os outros para lhes virem fazer

guerra, o que foi bastante para não o fazerem, e se assegurarem

com isto os portugueses que viviam neste rio.

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