Segunda parte - Capítulo CLXXI
Que trata do tratamento que os tupinambás fazem aos que cativam,
e a mulher que lhes dão.
Os contrários que os tupinambás cativam na guerra, ou de outra qualquer maneira, metem-nos em prisões, as quais são cordas
de algodão grossas, que para isso têm mui louçãs, a que chamam
muçuranas, as quais são tecidas como os cabos dos cabrestos de
África; e com elas os atam pela cinta e pelo pescoço, onde lhes dão
muito bem de comer, e lhes fazem bom tratamento, até engordarem, e estão estes cativos para se poderem comer, que é o fim para
que os engordam; e como os tupinambás têm estes contrários
quietos e bem seguros nas prisões, dão a cada um por mulher a
mais formosa moça que há na sua casa, com quem ele se agasalha, todas as vezes que quer, a qual moça tem cuidado de o servir,
e de lhe dar o necessário para comer e beber, com o que cevam
cada hora, e lhe fazem muitos regalos. E se esta moça emprenha
do que está preso, como acontece muitas vezes, quando pare, cria
a criança até idade que se pode comer, que a oferece para isso ao
parente mais chegado, que lho agradece muito, o qual lhe quebra
a cabeça em terreiro com as cerimônias que se adiante seguem,
onde toma o nome; e como a criança é morta, a comem assada
com grande festa, e a mãe é a primeira que come desta carne, o
que tem por grande honra, pelo que de maravilha escapa nenhuma criança que nasce destes ajuntamentos, que não matem; e a
mãe que não come seu próprio filho, a que estes índios chamam
cunhambira, que quer dizer filho do contrário, têm-na em ruim
conta, e em pior, se o não entregam seus irmãos ou parentes com
muito contentamento. Mas também há algumas, que tomaram
tamanho amor aos cativos que as tomaram por mulheres, que
lhes deram muito jeito para se acolherem e fugirem das prisões,
que eles cortam com alguma ferramenta, que elas às escondidas
lhes deram, e lhes foram pôr no mato, antes de fugir, mantimentos para o caminho; e estas tais criaram seus filhos com muito
amor, e não os entregaram a seus parentes para os matarem, antes os guardaram e defenderam deles até serem moços grandes,
que quando chegam a essa idade logo escapam da fúria dos seus
contrários. Muitas vezes deixam os tupinambás de matar alguns
contrários que cativaram por serem moços, e se quererem servir
deles, aos quais criam e fazem tão bom tratamento que andam de
maneira que podem fugir, o que eles não fazem por estarem à sua
vontade; mas depois que este gentio teve comércio com os portugueses, folgam de terem escravos para lhos venderem; e, às vezes,
depois de os criarem, os matam por fazerem uma festa destas.