Segunda parte - Capítulo CLXX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 245 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo CLXX

Em que se declara que o tupinambá que matou o contrário, toma logo

nome, e as cerimônias que nisso fazem.

Costuma-se, entre os tupinambás, que todo aquele que mata

contrário, toma logo nome entre si, mas não o diz senão a seu

tempo, que manda fazer grandes vinhos; e como estão para se

poderem beber, tingem-se à véspera à tarde de jenipapo, e começam à tarde a cantar, e toda a noite, e depois que têm cantado um

grande pedaço, anda toda a gente da aldeia rogando ao matador,

que diga o nome que tomou, ao que se faz de rogar, e, tanto que o

diz, se ordenam novas cantigas, fundadas sobre a morte daquele

que morreu, e em louvores do que matou, o qual, como se acabam

aquelas festas e vinhos, se recolhe para a sua rede, como anojado,

por certos dias, e não come neles certas coisas, que têm por agouro se as comer dentro daquele tempo.

Todo tupinambá que matou na guerra ou em outra qualquer

parte algum contrário, tanto que vem para casa, e é notório aos

moradores dela da tal morte do contrário, costumam, em o matador entrando em casa, arremessarem-se todos ao seu lanço e

tomarem-lhe as armas e todas as suas alfaias de seu uso, ao que ele

não há de resistir por nenhum caso, e há de deixar levar tudo sem

falar palavras; e como o matador faz estas festas deixa crescer o

cabelo por dó alguns dias e, como é grande, ordena outros vinhos

para tirar o dó; ao que faz nas vésperas cantadas, e ao dia que se hão

de beber os vinhos se tosquia o matador e tira o dó; tornando-se a

encher e tingir de jenipapo, o qual também se risca em algumas

partes do corpo com o dente de cotia, em lavores; e dão por estas

sarjaduras uma tinta com que ficam vivas, e enquanto o riscado

vive, o têm por grande bizarria; e há alguns índios que tomaram

tantos nomes, e se riscaram tantas vezes que não têm parte onde

não esteja o corpo riscado.

Costumam também as irmãs dos matadores fazer as mesmas

cerimônias que fizeram seus irmãos, tosquiando-se e tingindo-se

do jenipapo, e dando alguns riscos em si; e fazem o mesmo pelos

primos a que também chamam irmãos, e fazem também suas

festas com seus vinhos, como eles; e para se não sentir a dor do

riscar, se lavam primeiro muito espaço com água muito quente,

com que lhes entesa a carne e não sentem as sarjaduras; mas muitos ficam dela tão maltratados que se põem em perigo de morte.

1/1
Menu

Fazer anotação