Segunda parte - Capítulo CLXX
Em que se declara que o tupinambá que matou o contrário, toma logo
nome, e as cerimônias que nisso fazem.
Costuma-se, entre os tupinambás, que todo aquele que mata
contrário, toma logo nome entre si, mas não o diz senão a seu
tempo, que manda fazer grandes vinhos; e como estão para se
poderem beber, tingem-se à véspera à tarde de jenipapo, e começam à tarde a cantar, e toda a noite, e depois que têm cantado um
grande pedaço, anda toda a gente da aldeia rogando ao matador,
que diga o nome que tomou, ao que se faz de rogar, e, tanto que o
diz, se ordenam novas cantigas, fundadas sobre a morte daquele
que morreu, e em louvores do que matou, o qual, como se acabam
aquelas festas e vinhos, se recolhe para a sua rede, como anojado,
por certos dias, e não come neles certas coisas, que têm por agouro se as comer dentro daquele tempo.
Todo tupinambá que matou na guerra ou em outra qualquer
parte algum contrário, tanto que vem para casa, e é notório aos
moradores dela da tal morte do contrário, costumam, em o matador entrando em casa, arremessarem-se todos ao seu lanço e
tomarem-lhe as armas e todas as suas alfaias de seu uso, ao que ele
não há de resistir por nenhum caso, e há de deixar levar tudo sem
falar palavras; e como o matador faz estas festas deixa crescer o
cabelo por dó alguns dias e, como é grande, ordena outros vinhos
para tirar o dó; ao que faz nas vésperas cantadas, e ao dia que se hão
de beber os vinhos se tosquia o matador e tira o dó; tornando-se a
encher e tingir de jenipapo, o qual também se risca em algumas
partes do corpo com o dente de cotia, em lavores; e dão por estas
sarjaduras uma tinta com que ficam vivas, e enquanto o riscado
vive, o têm por grande bizarria; e há alguns índios que tomaram
tantos nomes, e se riscaram tantas vezes que não têm parte onde
não esteja o corpo riscado.
Costumam também as irmãs dos matadores fazer as mesmas
cerimônias que fizeram seus irmãos, tosquiando-se e tingindo-se
do jenipapo, e dando alguns riscos em si; e fazem o mesmo pelos
primos a que também chamam irmãos, e fazem também suas
festas com seus vinhos, como eles; e para se não sentir a dor do
riscar, se lavam primeiro muito espaço com água muito quente,
com que lhes entesa a carne e não sentem as sarjaduras; mas muitos ficam dela tão maltratados que se põem em perigo de morte.